quarta-feira, 22 de março de 2017

Ceticismo, uma posição pessoal I: (A) Generalidades e (B) O problema da existência de Deus.


(A)– Generalidades

Autocolante da revista Skeptical Inquirer
O ceticismo [1] é uma corrente de pensamento que em teoria promove a dúvida relativamente a conceitos (ideias, teorias, crenças, etc.) não testados cientificamente, o que sempre me pareceu correto. O melhor mecanismo que dispomos para conhecer a realidade, é o método científico [2]. Procuro sempre usar mentalmente a dúvida e ser cético relativamente à informação que recebo, o que implica conhecer o melhor possível os factos e deles retirar as minhas conclusões, formulando uma opinião.

Isso implica duas coisas muito importantes:

1- Ter especial cuidado com a fonte da informação.

Os meios de comunicação profissionais são considerados em geral os mais credíveis, no entanto é frequente serem deficientes, insuficientes ou parciais quando relatam os acontecimentos. Então a nível político isto é para mim muito evidente. Os jornais, rádios ou estações de televisão têm quase sempre uma orientação editorial antigovernamental ou pró governamental, de “direita” ou de “esquerda”, e mais raramente de “centro”.

Não devemos afirmar que os profissionais do jornalismo são deliberadamente pouco objetivos, mas se um noticiário televisivo ou radiofónico opta por dar destaque como assunto de relevância nacional, a meia dúzia de manifestantes pouco representativos, contra uma política governamental, é um critério de seleção da informação discutível, da responsabilidade de quem seleciona e organiza esse noticiário. A seleção e os títulos das notícias, a sua sequenciação, duração e relevância mostram de que lado está o noticiário. Nós sabemos, ao fim de vários anos de ler, ouvir e ver notícias, como implicitamente se posicionam [3] as principais televisões, as principais rádios e os principais jornais dentro do espetro partidário: mais à esquerda, ao centro ou mais à direita. É nesse contexto, que o jornalista, honesto e trabalhador sem dúvida, é contratado, formado e tem a sua carreira - ao serviço da máquina informativa onde está integrado.

As instituições humanas, por muita descentralização ou independência individual que proclamem, regulam-se todas pela mesma fórmula básica: a lealdade é condição de funcionalidade da hierarquia/liderança. Por isso devemos, sempre que julguemos importante, consultar e analisar as fontes primárias ou de origem, das notícias dos media. No caso dos políticos, ler ou ouvir as declarações que proferiram e o contexto em que as produziram, consultar os textos originais dos relatórios e propostas (do governo ou da oposição) apresentados, e só depois elaborar uma opinião.
Claro que regra geral não temos tempo para fazer isso. Temos mais que fazer na nossa vida e limitamo-nos a receber a informação selecionada e “mastigada” dos media. Mas quando o assunto é deveras significativo, isso é capaz de me acontecer em média uma vez por mês, esforço-me para “perder” por exemplo uma hora, à volta de um assunto que me interessa. Isto aplica-se também às notícias internacionais. Os media muitas vezes só destacam as partes ou os aspectos que mais lhes interessam.

Se são assuntos de natureza científica, existem as revistas especializadas. Mas mesmo estas, exibem por vezes apriorismos que distorcem a realidade conforme conveniências e interesses instalados, particularmente no caso das chamadas “ciências sociais”, mas não só.

2- Ser crítico

A crítica implica estarmos suficientemente disponíveis para pensar se o contrário de uma afirmação não poderá ser igualmente defensável e com que argumentos e fundamentos, pesar os prós e os contras de cada posição, procurar um caminho intermédio ou um caminho alternativo com diferentes pressupostos. São processos que usamos mentalmente para ajuizar sobre o que nos rodeia.

Estar alerta e colocar em causa ações, atitudes e opiniões não significa contradizer tudo e todos verbalizando estas questões, exceto se tivermos alguma vocação de eremita. Depois o exercício também não deve ser levado ao extremo. Torna-se cansativo, e  não procuramos uma implosão cerebral paralisadora, além de que que as prioridades e os interesses do dia-a-dia sempre se devem sobrepor às manias intelectuais que possamos ter. Moderação e bom senso em tudo.

Ser crítico não obriga a ser intolerante, negativo, destrutivo e muito menos agressivo. A melhor crítica é quase sempre aquela que se afirma educadamente pela positiva e em certas circunstâncias, se não soubermos de uma alternativa, mais vale pensar melhor antes de dizer ou de fazer algum disparate. Ser crítico é ainda um exercício corajoso que devemos a nós próprios: será que estamos a tomar as melhores decisões? A pensar e a agir acertadamente? Estamos seguros dos nossos objetivos? Precisamos de mudar algo?
Isto nada tem que ver com a “auto crítica” [4] partidária ou com a “confissão” [5] religiosa, rituais desenhados para reconduzir ao dogma quem dele se afasta. Ser crítico é precisamente o contrário: é ser capaz de questionar tudo, inclusive as chamadas “verdades absolutas”.

Substituir um dogma com o qual não concordamos por outro, igualmente desprovido de prova não é ser crítico. Muitas vezes quando não dispomos de uma resposta afirmativa que possa responder ao assunto em causa, podemos também apresentar as nossas dúvidas como base do nosso pensamento. Expressar uma dúvida, como sabemos, é algo do mais honesto que podemos fazer com os outros e é do senso comum ouvir que “da discussão nasce a luz” e que “várias cabeças pensam melhor do que uma”. O que é infelizmente muito fácil de encontrar são falsas certezas, mascaradas de assertividade e nos piores casos, de arrogância.

(B)– O problema da existência de Deus

Leio e sigo atentamente duas revistas céticas, a Skeptical Inquirer [6] e a Skeptic [7]. Mas curiosamente não consigo concordar com todos os conceitos defendidos por estas revistas: em vários assuntos considero-as dogmáticas. Ora, o verdadeiro ceticismo só deveria defender conceitos cientificamente demonstrados. Um cético é aquele que discorda sobre os dogmas que lhe pretendem impingir, mesmo se estes lhe aparecerem com o carimbo aprovador de um “movimento cético”.
O pecado do movimento cético dos nossos dias é o de ter aderido a algumas falsas “verdades” como é o caso da discussão entre a existência vs a não existência de Deus.

Para uma pessoa religiosa em princípio o problema não existirá: acredita na existência de Deus, e com essa crença tem o problema resolvido. Não é o meu caso, visto que sobre a existência ou não de Deus não tenho provas científicas, tanto pode existir como não. Não dispondo de meios de prova sobre qualquer das hipóteses, vivo com essa dúvida. É incómodo, reconheço. Assim, não sou religioso nem ateu. Além do mais, não me limito a apontar os defeitos da religião, ou vê-la apenas pelos seus aspetos negativos.

Portugal foi muito prejudicado pelo fundamentalismo católico e mais tarde pela Contra Reforma, principalmente após o fim do reinado de D. João II [8], tendo sido esse fundamentalismo a primeira causa da expulsão dos portugueses judeus, da decadência do país no segundo e terceiro quartos do século dezasseis e da bárbara repressão e tortura de milhares de inocentes pelo menos até ao Marquês de Pombal [9]. Enquanto portugueses, não nos devemos esquecer de quem ao longo da história, várias vezes, nos quis mal e nos prejudicou – da mesma forma não nos devemos esquecer de quem nos ajudou nos momentos de aflição.

Tenho também consciência do papel cultural da religião, como fator agregador e unificador civilizacional, e reconheço por exemplo no meu país (e em mim próprio, sem ser religioso), a grande influência da religião de raiz judaico-cristã, herdada da romanização, a par do latim, e o importante papel que desempenhou na reconquista e nos primeiros tempos da nacionalidade. Tenho até curiosidade pelo folclore popular religioso, com os seus santos, as suas lendas, romarias e festas, celebro com prazer em família, as épocas natalícia e pascal e respeito sinceramente as convicções religiosas que cada um possa ter.

Respeito, não significa indiferença, nem que concorde com uma famosa frase de um livro de Robert Heinlein [10], também ele um agnóstico: “ Não existe prova conclusiva da vida depois da morte, mas não há qualquer tipo de evidência do seu contrário. Cedo saberás, porquê tanta preocupação com isso?” Entendo que é importante discutir o assunto e preocupo-me com ele (como se preocupava, e muito, Heinlein, apesar da citação). Por isso concordo com Richard Dawkins [11], ateu militante, quando defende que vale a pena discutir a fé e a religião.

Como surgiu este formidável universo que habitamos?
(Foto do Hubble)
No entanto, alguns, intitulando-se de céticos, confundem o ceticismo com o ateísmo. Só que o ateu não se pode afirmar pela positiva porque não dispõe de elementos de prova que confirmem a sua posição. Por isso, sempre discordei com a adesão ateísta de quem se designa a si próprio como cético. Um verdadeiro cético só pode ser agnóstico.

Uma das minhas maiores perplexidades é recente. O CSI (Committee for Skeptical Inquiry – Comité para a Investigação Cética) [12] que publica a revista Skeptical Inquirer tem como fundadores alguns dos meus antigos heróis científicos, como foram o caso de Carl Sagan [13] e de Isaac Asimov [14]. Ora, o CSI acaba de se fundir com a Fundação Richard Dawkins, de inspiração ateísta, cuja missão principal é fomentar a criação de uma “sociedade secular” [15].  Não me parece que esse objetivo seja compatível com o que deveria ser o pensamento cético do CSI, que deveria estar aberto à dúvida, à curiosidade e à pluralidade, embora contrário e denunciante de mentiras e de vigarices.

Há religiosos e religiões de diferentes tipos, monoteístas, politeístas, panteístas, etc., assim como há vários tipos de agnosticismo. Há agnósticos, que mesmo reconhecendo que não têm provas, acreditam que Deus provavelmente não existirá. Outros, perante os mesmos fatos, acham possível que possa existir. Há agnósticos que acreditam que a ciência um dia poderá provar se Deus ou Deuses existem ou não, enquanto outros duvidam dessa hipótese, etc. Não faço a mínima ideia, embora gostasse de ver um dia uma qualquer prova afirmativa ou negativa.

No fim de contas, há ainda muitas coisas que não conseguimos compreender, a principal das quais é o absurdo da existência de tudo, do universo, dos conceitos de finito/infinito, da matéria, do espaço/tempo, etc. Quanto mais sabemos, mais conscientes ficamos do quanto nos falta perceber. O próprio conceito de "Deus" é para mim incompreensível. Compreenderia melhor que uma espécie de seres mais avançada e evoluída que nós, fosse capaz de construir um universo  [16]. Com ou sem Deus(es) no meio da equação, tudo é possível, inclusive o que ainda não somos capazes de sonhar.

Observações:

[01] Ceticismo – um cético tem mais dificuldade em ter certezas e é mais propenso à dúvida, mas o ceticismo individual e o ceticismo enquanto movimento organizado podem não ter correspondência em termos de valores. Tal como uma revista científica, que é produto do trabalho de um grupo específico de pessoas, pode apresentar artigos e defender ideias com as quais nem todos os cientistas da mesma área concordem.

[02] Método científico – (1) Identificar o problema a resolver (2) apurar os dados relevantes (3) formular uma hipótese a partir dos dados (4) testar na prática a hipótese. O que se pretende com o método científico é limitar a subjetividade e o erro e aumentar a objetividade, usando a lógica, unidades de medida e processos reproduzíveis por terceiros.

[03] Posicionamento político dos meios de comunicação profissionais: tenho admiração pelos media que editorialmente declaram posições políticas pró partidárias durante os períodos eleitorais. Não é comum em Portugal, onde os media se tentam todos disfarçar de “equidistantes” e “objetivos”. É ridículo, quando é fácil compreender os lados da barricada que ocupam.

[04] Auto crítica: as sessões de “autocrítica” por exemplo dentro das células partidárias comunistas destinam-se a corrigir os erros dos “camaradas” que ou demonstram pouco “empenhamento e convicção revolucionária” ou não cumprem com “as linhas de orientação do partido” ou desobedecem aos “princípios e valores do marxismo-leninismo”. É principalmente um mecanismo disciplinador para o “controleiro"/chefe,  sempre num enquadramento mental e ideológico pró-comunista.

[05] Confissão: no catolicismo o “perdão” dado acaba por funcionar em muitos casos apenas, como um alívio do “fardo” dos pecados confessados - que podem incluir não apenas ações, mas também intenções e pensamentos (por ex: inveja, visto que Deus “sabe tudo”) - mas em teoria, com este ritual “sacramental” de arrependimento/penitência, pretende-se  evitar novos pecados e reforçar a “Fé”.

[06] e [7] Skeptical Inquirer e revista Skeptic: aconselho vivamente a quem estiver interessado no pensamento cético a pelo menos comprar alguns números  destas duas revistas em formato digital e em subscrever pelo menos uma das duas.

[08] Rei D. João II (1455-1495) – Foi com ele que se deu o impulso decisivo para a descoberta do caminho marítimo para a Índia. Centralizador e autoritário. Um das figuras mais admiradas da História de Portugal.

[09] Marquês de Pombal (1699-1782) – Foi secretário de estado do reino (chefe do governo) durante o reinado de D. José. Embora oficialmente a Inquisição tenha continuado a existir após o reinado de D. José, o Marquês de Pombal - e Conde de Oeiras, Sebastião José de Carvalho e Melo – na prática esvaziou os seus poderes.

[10] Robert Heinlein (1907 – 1988) – Notável escritor de ficção científica.

[11] Richard Dawkins (n.1941) – Notável biólogo, escritor e ativista ateu.

[12] CSI (Committee for Skeptical Inquiry – Comité para a Investigação Cética)

[13] Carl Sagan (1934 – 1996) – Notável divulgador científico, astrofísico e escritor.

[14] Isaac Asimov (1920 – 1992) - Notável escritor de ficção científica e de divulgação científica.

[15] Sociedade secular – significa uma absoluta separação e neutralidade do governo e do estado face à religião - sendo desejável em teoria, é impossível enquanto existirem seres humanos religiosos que façam parte do governo e do estado, e existirem maiorias sociais religiosas.  Na prática, equivaleria a ser anti-religioso, o que nenhum político se atreveria a fazer. Por exemplo, agora na comemoração dos 100 anos de Fátima, em nome dessa separação, nenhum político (do governo, do parlamento,etc) iria à Cova de Santa Iria. Está-se mesmo a ver que aquilo será uma romaria para os políticos, embora todos possam defender em palavras o secularismo. 
Um cético não deve tomar posição contra a religião, a não ser quando as instituições religiosas fomentem conceitos e práticas que conflituem com os direitos e liberdades de uma sociedade democrática. Nesses casos as religiões devem ser criticadas, como qualquer outra instituição humana - política, social ou cultural. Um exemplo, é que poucas religiões aceitam a igualdade de género, mas é legítimo questionar também se essa igualdade existirá noutras instituições.

[16] Bertrand Russel (1872-1970) não acreditava que a existência do mundo pudesse ser explicada por Deus, porque "Se tudo tem uma causa, então Deus deve ter uma causa. Se puder existir algo sem causa, tanto pode ser o mundo como Deus". A meu ver pode não ser assim na hipótese da existência de seres de um universo diferente com outras regras físicas - terem criado o nosso próprio universo, porque nesse caso, já estaremos menos à vontade para poder generalizar um princípio de casualidade que possa funcionar da forma a que estamos habituados. Para quem souber inglês e quiser imaginar universos diferentes, aconselho que vejam este vídeo de Carl Sagan.

sábado, 29 de outubro de 2016

Janela aberta para o mundo (sobre a Janela do Capítulo do Convento de Cristo em Tomar)


Janela do Capítulo

Quando o Grão-Mestre templário Gualdim Pais [01], companheiro de armas de Afonso Henriques, construiu o Castelo de Tomar e o Convento de Cristo no século doze, fixando Tomar como quartel general da Ordem dos Templários em Portugal, não poderia imaginar que desta instituição, dois séculos mais tarde designada por Ordem de Cristo (Ordem dos Cavaleiros de Nosso Senhor Jesus Cristo), iria nascer a grande realização épica que foram os descobrimentos.  Além do Infante D. Henrique, muitos dos grandes navegadores foram membros da Ordem de Cristo: Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, Bartolomeu Dias, Fernão de Magalhães, etc.

É neste local mítico que encontramos a mais elaborada peça escultórica em pedra que existe em Portugal; construída ao longo do século dezasseis é símbolo maior das descobertas marítimas dos portugueses: a Janela do Capítulo do Convento de Cristo.

Quem com grande conhecimento e brilhantismo descreve a janela e a fachada ocidental da igreja do Convento de Cristo é Vieira Guimarães, de seu nome completo, José Vieira da Silva Guimarães (1864-1939). Ilustre nabantino, fez um pouco de tudo. Que saibamos, foi médico-cirurgião, professor de geografia e história no Liceu de Lisboa, sócio correspondente da Real Associação dos Arquitetos e Arqueólogos Portugueses, vice-secretário da secção de história e vogal da secção de excursões cientificas da Sociedade de Geografia de Lisboa, Comendador da Ordem de N. S. J. Cristo, deputado, historiador e escritor ensaísta, com múltiplas obras publicadas [02]. Deixou como herança à sua querida Tomar a Casa Vieira Guimarães. O edifício fica junto ao rio Nabão e a intenção de Vieira Guimarães era que após sua morte, pudesse servir como espaço cultural da cidade. Propriedade da câmara municipal de Tomar, até hoje a Casa Vieira Guimarães tem sido usada para esse fim. Aí se realizam exposições, conferências, etc. É sede da comissão das Festas dos Tabuleiros.

Excerto de “A Missão de Portugal e o Monumento de Tomar” de Vieira de Guimarães [03]

(...) A fachada do poente ostenta a mais alta, a mais simbólica expressão do génio artístico de uma raça. Se no egrégio mestre da ilustre Ordem de Cristo, o imortal D. Henrique, cristalizou a irresistível tendência do povo português para desvendar os segredos do Oceano, nesta fachada soberba está em rendilhadas pedras, em motivos nacionais e estranhos, essa mesma patriótica intenção, esse famoso pensamento, essa elevada missão que custou 80 anos e que foi realizada com maior esforço DO QUE PROMETIA A FORÇA HUMANA. No todo dela avulta uma página grandiosa, sublime, portuguesa como nenhuma outra, que se levanta no glorioso solo da nossa pátria.

É vê-la; pois vendo-se é que se faz ideia desta portentosa joia arquitetónica, que enche de orgulho os portugueses, que nela provam o intenso grau da sua sentimentalidade e estética. Não são pedras, são letras; não é uma estrofe, é um poema, é uma epopeia. Se desaparecessem Os Lusíadas, o que jamais sucederia, aqui está esta fachada a cantar altisonantemente as nossas empresas gloriosas, imortais, homéricas, que fizeram do povo português o mais ilustre das idades modernas.
Ladeiam-na dois altos botaréus [04], que são como que a moldura do grande quadro, e no género obras-primas, ricamente ornamentados com guarnições de corais. As do lado do sul emolduram estátuas, que as divisas dos escudos denunciam ser de D. Afonso Henriques, D. Dinis e D. Manuel; as do lado do norte figuras de anjos, que seguram as divisas do rei Venturoso.
Por baixo destes quadros de corais arrimam-se troncos de sobreiros com as raízes pendentes, amarrados às fachadas, uns por uma grossa corrente e outros por uma graciosa correia, que enfia numa formosíssima fivela, talvez símbolo do grau da Cavalaria da Jarreteira, que D. Manuel possuía.

Vieira Guimarães [1864-1939]
Na parte superior adelgaçam-se os botaréus; cinco festões de papaver somniferum [05] com seus frutos quebram as esquinas e fazem como que base a uns formosos pináculos coroados pela cruz de Cristo.
Ao centro, abre-se a celebérrima janela do baixo coro; e nela e à roda dela, que se vos patenteia? As letras rendilhadas com que os geniais artistas do grande João de Castilho [06] escreveram o poema das nossas navegações POR MARES NUNCA DANTES NAVEGADOS. 
As notas vibrantes da marcha triunfal do progresso, em que a alva bandeira de Cristo flutuava ao sol radioso da nossa glória sobre mastros de mil navios; quadro soberbo em que respira a alma da nossa pátria, em que palpita a intensa vida do nosso século XV, e que canta com toda a força e verdade a sublime missão histórica de Portugal.

Nesta fachada gloriosa vemos os polipeiros de coral, as vieiras das praias descobertas, os ramos retorcidos dos nossos seculares sobreiros, as ondas dos mares por nós sulcados, as guizeiras dos nossos solípedes [07], as correntes das nossas naus, os cabos boiados das nossas redes, folhas e cápsulas das nossas dormideiras, cordas, uma ancora, argolas, algas, pranchas de cortiça dos nossos sobreirais, cães, ratos, a lendária mantichora [08], um marinheiro agarrando um carvalho pelas raízes, talvez para utilizar o gigante roble [09] na fabricação da sua nau, as velas arfantes e risadas dessas elegantes caravelas que nos levaram às risonhas plagas [10] indianas: tudo aqui se consubstancia, se avulta, se estiliza, representando uma ideia grandiosa, augusta, épica.

Esta fachada, encerra toda a historia dos nossos gloriosos séculos XV e XVI no que eles têm de grande, heroico, cavalheiresco, navegante e conquistador. É uma bela página em que se cristaliza todo o sentir da nacionalidade portuguesa, e padrão glorioso que podemos apresentar orgulhosos ao mundo inteiro, pois é «a obra mais eloquente, mais convicta, mais entusiasticamente patriótica, mais estremecidamente portuguesa que jamais realizou em nossa raça o talento de esculpir e de fazer cantar a pedra», como diz o grande escritor e português Ramalho Ortigão [11]. O monumento de Tomar é nesta igreja e principalmente nesta fachada, a mais sublime expressão, a mais nacional, a mais simbólica, a mais representativa, das nossas navegações, do gloriosíssimo triunfo, sobre os mares, da nossa querida pátria (...).

Esta janela pode apresentar um duplo sentido, conforme a perspetiva: para quem está dentro, para os cavaleiros da ordem, transmitir a ideia de missão, de expansão da fé cristã e de manter e alargar o império; para o observador externo, apercebemo-nos que a origem, o ponto central e nevrálgico das descobertas, encontra-se aqui, na Ordem de Cristo em Tomar. E foi sob as velas com a cruz desta ordem, que se percorreu o mundo e ficámo-nos a conhecer todos uns aos outros.

                
NOTAS:

[01] Gualdim Pais (1118-1195) – Foi o terceiro Grão-Mestre da Ordem do Templo (Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão) em Portugal e transferiu a sua sede de Soure para Tomar em 1160.

[02] Obras de Vieira Guimarães sobre Tomar e a Ordem de Cristo: A Missão de Portugal e o Monumento de Tomar; O poema de pedra de João Castilho em Tomar; Tomar Arqueológica e Artística do Monumento de Cristo e das Igrejas de Santa Maria dos Olivais, de Santa Iria e de S. João; A cruz da ordem de Cristo nos navios dos descobrimentos portugueses; O monumento de Cristo, em Tomar, e as missões religiosas; Tomar e o além-mar; Marrocos e três mestres da ordem de Cristo; O Século XII e a Fundação do Castelo de Tomar; A trilogia monumental de Alcobaça, Batalha, Tomar e o caminho de ferro; A Ordem de Cristo; O claustro de D. João III em Tomar.

[03] O subtítulo é “Conferência realizada no Convento de Cristo no dia da excursão científica da Sociedade de Geografia de Lisboa à cidade de Tomar”. Usei a versão original de 1905, edição da Tipografia da Empresa da História de Portugal, com as correções ortográficas necessários do português atual. Socorri-me ainda da adaptação do texto original, feita pelo próprio Vieira Guimarães, que integrou o livro para os três primeiros anos do Ensino Secundário “Leituras Portuguesas” da responsabilidade de J. Barbosa Bettencourt, edição da Aillaud e Bertrand, 1907, páginas 300-303, “133- Fachada ocidental da igreja do Convento de Cristo, em Tomar”.    

[04] Botaréu – contraforte de reforço para sustentação de arcos ou de paredes (como é este o caso).

[05] “papaver somniferum” – papoila-dormideira ou dormideira.

[06] João de Castilho (1470-1552) – Embora nascido na Cantábria, fez a sua carreira principalmente em Portugal. É por isso considerado um dos maiores arquitetos da nossa história, e um dos grandes da Europa do renascimento. Autor de uma vasta e notável obra construída, João de Castilho encontra-se ligado à edificação de cinco monumentos históricos classificados pela UNESCO como Património Mundial, com grande destaque para o Mosteiro dos Jerónimos e o Convento de Cristo, onde a sua ação foi determinante. Entre muitas outras obras de sua responsabilidade, teve também intervenção no Mosteiro de Alcobaça, no Mosteiro da Batalha e na construção da fortaleza de Mazagão, igualmente classificados como Património Mundial. Ver na Wikipedia.

[07] Solípedes – Diz-se do animal mamífero que possui os dedos unidos num único casco: os equídeos como o cavalo e o burro, são solípedes.

[08] Mantichora – criatura mitológica, semelhante à esfinge egípcia, com cabeça de homem, afiadas fileiras de dentes do tipo do tubarão e voz trovejante; tem corpo de leão  e cauda de escorpião ou de dragão, podendo possuir asas ou não.

[09] Roble – Carvalho

[10] Plagas – Região, território.      

[11] O Culto da Arte em Portugal de Ramalho Ortigão, edição António Maria Pereira, 1896.

sábado, 10 de setembro de 2016

O Padre António Vieira e a Gestão


Padre António Vieira [1608-1697]
Os textos do Padre António Vieira estão carregados de sensatez e de observações interessantes. Existe na internet um enorme número de pequenas citações extraídas dos seus textos. As citações são úteis, porque despertam curiosidade para a leitura da obra, mas são quase sempre insuficientes. A frase fora do contexto é mais pobre do que se for entendida tal como foi pensada e escrita, integrada na lógica do raciocínio completo. Por isso optei por selecionar, não citações ou frases curtas, mas textos um pouco mais extensos, retirados de alguns dos seus sermões, onde melhor se pudesse compreender o que o Padre António Vieira pretendia transmitir.

Procurei recortes que se relacionassem com assuntos de Gestão. Pareceu-me ser uma forma diferente da habitual de mostrar a sua atualidade.


SOBRE COMO DECIDIR

O primeiro texto é sobre a guerra, mas pode-se generalizar a todos os gestores que têm de decidir sobre assuntos complexos que envolvem os destinos de grandes grupos de pessoas, como são as empresas, as instituições do estado ou mesmo as nações. Conseguir ter segurança quanto às decisões a tomar é por vezes muito difícil.
O Sermão de Santa Cruz foi apresentado na Festa dos Soldados, em 1638, na Bahia, Brasil, perante a Armada Real e muita nobreza:

“(...) O maior perigo e perdição da guerra é cuidarem os doutores desta arte que sabem tudo. Os sábios em qualquer faculdade mais sabem ouvindo que discorrendo, e mais acompanhados dos que sós. “Meliores aestimantur qui soli non omnia praesumunt” — diz o grande político Cassiodoro [1]: que sempre “Foram estimados por melhores os que de si só não presumem tudo”. — Já se a presunção do saber se ajunta à soberania do poder, como em Nicodemos [2] que era mestre e príncipe, nestes dois resvaladeiros [3] está certo o precipício e a ruína. Para conseguir efeitos grandes, e para levar ao cabo empresas dificultosas, mais segura é uma ignorância bem aconselhada que uma ciência presumida [sublinhado nosso].

A primeira vitória para alcançar outras muitas é sujeitar o juízo próprio quem não é sujeito ao mando alheio. Perguntado Alexandre Magno com que indústria ou com que meios em tão breve tempo se fizera senhor do mundo, diz Estrobeu [4] que respondera estas palavras: “Consilii, eloquentia et art imperatoria”: “Com os conselhos, com a eloquência, e com a arte de governar exércitos”. No último lugar pôs a arte, e no primeiro o conselho, porque o conselho é a arte das artes, e a alma e inteligência do que ela ensina. A arte prescreve preceitos em comum, o conselho considera as circunstâncias particulares; a arte ensina o que se há de fazer, o conselho delibera quando, como e por quem (...) .”

Decisões complexas, implicam avaliar a realidade, saber quais as alternativas disponíveis para a ação e escolher a melhor. Dificilmente uma única pessoa consegue isoladamente, reunir as melhores destas competências. Por isso, é preferível fazer participar nas decisões os que as têm de pôr em prática. Fazer outros participar nas decisões é além disso criar união de propósitos e valores, comprometer com a ação e motivar a vontade.
A decisão individualista pode parecer mais simples, mais rápida e com menos dificuldades do que fazer participar pessoas com diferentes perspetivas, mas o risco de fracasso é maior.


SOBRE O PLURIEMPREGO DAS ELITES

Um outro texto do Padre António Vieira de 1655, proferido em plena Capela Real em Lisboa, o Sermão da Terceira Dominga [5] da Quaresma, remete-nos para um tema interessantíssimo:

“(...) Há sujeitos na nossa corte que têm lugar em três e quatro tribunais: que têm quatro, que têm seis, que têm oito, que têm dez ofícios [sublinhado nosso]. (...) Não era cristão Platão, e mandava na sua república que nenhum oficial pudesse aprender duas artes. E a razão que dava era porque nenhum homem pode fazer bem dois ofícios. Se a capacidade humana é tão limitada que para fazer este barrete são necessários oito homens de artes e ofícios diferentes, um que crie a lã, outro que a tosquie, outro que a carde, outro que a fie, outro que a teça, outro que a tinja, outro que a tose [6], e outro que a corte e a cosa; se nas cidades bem ordenadas, o oficial que molda o ouro não pode lavrar a prata, se o que lavra a prata não pode bater o ferro, se o que bate o ferro não pode fundir o cobre, se o que funde o cobre não pode moldar o chumbo nem tornear o estanho, no governo dos homens, que são metais com uso de razão, no governo dos homens, que é a arte das artes, como se hão de ajuntar em um só homem, ou se hão de confundir nele, tantos ofícios? (...)”.

A admiração do Padre António Vieira coincide com a nossa, principalmente por já existir no século XVII o fenómeno dos cargos dirigentes em circuito fechado. Esta prática tem sido associada ao sistema económico moderno [7], mas é bem mais antiga. Já no tempo de Vieira existia uma elite que preenchia os cargos mais importantes do poder, em sistema de pluriemprego.


SOBRE A MENSAGEM

Como o anterior sermão, o famoso Sermão da Sexagésima, é do mesmo ano de 1655 no mesmo local, a Capela Real. É um sermão magnífico, mesmo para pessoas não religiosas, como é o meu caso:

Sobre a falta de eficácia da pregação junto dos índios do Brasil, perguntava o Padre António Vieira “(...) Será porventura o estilo que hoje se usa nos púlpitos? Um estilo tão empeçado, um estilo tão dificultoso, um estilo tão afetado, um estilo tão encontrado a toda a arte e a toda a natureza? (...).” E recomendava que o “estilo há de ser muito fácil e muito natural e que o “sermão há de ter um só assunto e uma só matéria[sublinhados nossos].

“(...) Se o lavrador semeara primeiro trigo, e sobre o trigo semeara centeio, e sobre o centeio semeara milho grosso e miúdo, e sobre o milho semeara cevada, que havia de nascer? Uma mata brava, uma confusão verde. Eis aqui o que acontece aos sermões deste género. Como semeiam tanta variedade, não podem colher coisa certa. Quem semeia misturas, mal pode colher trigo. Se uma nau fizesse um bordo para o norte, outro para o sul, outro para leste, outro para oeste, como poderia fazer viagem?(...)”.

O pior para quem comunica é empregar maneirismos, percorrer desvios ou usar apartes, que atrapalhem e anulem a concentração dos ouvintes sobre o assunto principal que se pretende transmitir. Evitar complexidades desnecessárias e ser direto, conciso, objetivo, claro e nunca demasiado prolongado, são conselhos que ouvimos sempre dos especialistas em comunicação. Um dos princípios mais conhecidos sobre eficácia da comunicação é o KISS (Keep It Simple and Stupid – Mantém Isso Simples e Estúpido).


SOBRE PALAVRAS E AÇÕES

Outro texto também do Sermão da Sexagésima, quando o Padre António Vieira explica que a questão fundamental da falta de eficácia da pregação não eram as palavras:

“(...) A definição do pregador é a vida e o exemplo. Por isso Cristo no Evangelho não o comparou ao semeador, senão ao que semeia. Reparai. Não diz Cristo: saiu a semear o semeador, senão, saiu a semear o que semeia: Ecce exiit, qui seminat, seminare. Entre o semeador e o que semeia há muita diferença. Uma coisa é o soldado e outra coisa o que peleja; uma coisa é o governador e outra o que governa. Da mesma maneira, uma coisa é o semeador e outra o que semeia; uma coisa é o pregador e outra o que prega. O semeador e o pregador é nome; o que semeia e o que prega é ação; e as ações são as que dão o ser ao pregador. Ter o nome de pregador, ou ser pregador de nome, não importa nada; as ações, a vida, o exemplo, as obras, são as que convertem o Mundo. O melhor conceito que o pregador leva ao púlpito, qual cuidais que é? – o conceito que de sua vida têm os ouvintes (...). Palavras sem obra são tiros sem bala; atroam, mas não ferem [sublinhado nosso] (...).”

A palavra, o discurso, é menos eficaz do que possamos por vezes pensar. Um dos campeões de vendas dos livros de gestão, o canadense Malcolm Gladwell [8], esclarece no seu livro “Blink”: “(...) toda a gente sabe que é melhor ter um especialista para mostrar-lhe – e não apenas dizer-lhe – como se joga o ténis ou o golfe, ou se toca um instrumento. Aprendemos pelo exemplo e pela experiência direta, porque existem limitações à capacidade da instrução verbal [sublinhado nosso] (...)”.
A aprendizagem académica ou profissional, em aula, apenas pela leitura ou com meios audiovisuais, é retida pelo ser humano em menos de 20% dos casos, enquanto que por exemplo a aprendizagem prática, é retida com sucesso em mais de 75% dos casos. Os pedagogos defendem que as crianças aprendem mais pelo exemplo, do que pela retórica dos educadores, pais e professores [9]


Usei apenas três sermões, todos com mais de 350 anos, mas o Padre António Vieira, tem muitos outros escritos: só sermões e cartas são às centenas. Este exercício poderia prolongar-se até onde desejássemos sobre os mais variados temas.  


NOTAS:
[1] Flávio Magno Aurélio Cassiodoro (490 — 581), político e escritor romano.
[2] Nicodemos - fariseu que viveu no tempo de Jesus. Era membro do Sinédrio e Mestre da Lei. Segundo o Evangelho de João, apoiava Jesus.
[3] Resvaladeiros – lugares inclinados e escorregadios onde se resvala com facilidade.
[4] “Estrobeu” não encontrei. Poderá ser Estrabão (64 a.C.- 24 d.C.), geógrafo grego que na sua “Geografia” tem inúmeras referências a Alexandre Magno.
[5] Dominga – domingo.
[6] Tosar – aparar a felpa do pano.
[7] Ver na Wikipedia “Elite theory” e como fenómeno relacionado “Interlocking directorate”. Poderá ter interesse, ver também na Wikipédia “Revolving door”. Aconselho a leitura destes assuntos na Wikipédia em inglês. Em português, ou não existem ou não estão suficientemente desenvolvidos.
[8] Malcolm Gladwell é escritor e jornalista. Todos os seus livros entraram na lista dos livros mais vendidos do New York Times.

domingo, 31 de julho de 2016

Porque é que os portugueses se lançaram ao mar e iniciaram os Descobrimentos?


Gomes Eanes de Zurara.
Padrão dos Descobrimentos, Lisboa.
É um assunto que ainda levanta discussões entre os historiadores. Sabe-se que o arranque inicial, a partir da primeira metade século XV, é liderado pelo Infante D. Henrique. É ele que organizadamente envia embarcações para conhecer a costa africana, e dá início ao que é designado por “Descobrimentos”.

O cronista da época, próximo do Infante D. Henrique, Gomes Eanes de Zurara diz explicitamente nas suas “Crónicas da Guiné” que “(...) imaginamos que sabemos alguma coisa quando conhecemos o seu fazedor e o fim para que ele fez tal obra (...)”, após o que nos expõe as “(...) cinco razões porque o senhor infante foi movido de mandar buscar as terras da Guiné (...)”.  

Zurara não poderia ser mais claro, conhecia bem o Infante e ia dizer-nos o porquê das suas descobertas. Mas os escritos de Zurara carecem de aceitação generalizada.

O livro recentemente reeditado de Peter Russel, “Henrique, o Navegador”, é justamente considerado o que de melhor se tem escrito sobre a pessoa do Infante D. Henrique e os primeiros passos dos Descobrimentos. De realçar que Peter Russel não só tem consigo o grande prestígio da direção dos Estudos Portugueses de Oxford, como foi especialista em história medieval ibérica e socorreu-se profusamente para elaboração do seu livro do melhor que poderiam oferecer alguns dos mais conhecidos e respeitados historiadores portugueses. Peter Russel faleceu em 2006 com 92 anos. Logo na introdução do seu livro, escreve o seguinte sobre Zurara:

“Foi em Portugal, ainda no tempo de D. Henrique e com a sua própria participação ativa, que a personalidade e os feitos do Infante começaram a afastar-se da realidade e a assumir os primeiros contornos do mito. As crónicas do seu coetâneo e devoto admirador, Zurara, orientam fortemente a biografia de D. Henrique nesse sentido. Foi ele quem primeiro tentou retratá-lo no triplo papel de Infante exemplar, cruzado dedicado contra o Islão e savant solitário.”
Mais adiante acrescenta que  Zurara “é para o historiador moderno um biógrafo muito menos satisfatório do que esperaríamos de alguém que esteve tão perto do seu objeto. Fiel à tradicional visão medieval do dever oficial de um cronista, nunca supôs que devia apresentar o Infante de forma objetiva, defeitos incluídos.”

É-me difícil aceitar que Zurara não seja um cronista competente, “menos satisfatório do que esperaríamos” ou pouco “objetivo”. Em especial, a crítica de não incluir os “defeitos” do Infante parece-me deslocada, atendendo a Zurara ser um cronista do século XV, algo que não pode ser comparado a um historiador moderno.

Socorri-me também do extraordinário Dicionário da História de Portugal, a grande enciclopédia histórica dirigida por Joel Serrão,  onde talvez pudesse descobrir mais coisas sobre o cronista. Tenho a edição de 1985 da Figueirinhas, sendo a última entrada do último volume, o sexto, precisamente “Zurara (Gomes Eanes de)”:

“Em contraste com as do seu antecessor [Fernão Lopes], as crónicas de Zurara são constituídas por narrativas elogiosas das proezas guerreiras de grandes personagens. Na Crónica da Tomada de Ceuta declara que averiguou diligentemente as ações de todos os guerreiros nobres, “conhecendo bem que a vontade de el-rei meu senhor é saber perfeitamente todos os merecimentos de seus naturais para honrar a memória dos mortos e remunerar os vivos pelos trabalhos de seus pais e deles mesmos”. Esta conceção da história, repetida em vários outros textos de Zurara, coincide com o reforço do poder senhorial no reinado de D. Afonso V e com a ideologia cavaleiresca então dominante. A fonte principal de Zurara é o testemunho oral das personagens biografadas. Assim, para os feitos do Infante D. Henrique, é o próprio Infante, chefe e protetor de Zurara. Este método não é propício à objetividade histórica (...)”.

Mas se Zurara vai escrever sobre a obra do Infante, tendo-o ali a seu lado e podendo falar com ele sobre o assunto, se o fizer é criticado por não ter “objetividade histórica”? Então que dizer da grande maioria das biografias e autobiografias dos últimos cem anos? Parece-me uma crítica injusta. A verdadeira razão da má vontade contra Zurara descubro-a na continuação do texto:

“(...) as crónicas de Zurara são quase omissas acerca dos fenómenos coletivos e dos aspetos económicos e sociais, muito desenvolvidos por Fernão Lopes. A opinião do vulgo, sempre depreciada, só aparece em contraste com a razão do herói. As duas grandes ideias que norteiam Zurara são, por um lado, a “honra” cavaleiresca e, por outro, a dilatação da Fé, a qual teria sido o móbil do Infante no descobrimento da costa africana (...)”

Repare-se no condicional em “teria sido o móbil do Infante”. Quer dizer-nos que pode não ter sido esse o motivo. Mas não compreendo como se pode concluir que, sendo Zurara apoiante do poder da época, mesmo que omita factos considerados importantes pelos historiadores atuais, da área social e económica, tenha em consequência disso errado a exposição dos motivos das descobertas henriquinas. Mais parece é que alguns historiadores, incluindo Russel, adotaram uma atitude anti-Zurara, o que não deixa de ser curioso de constatar, pois passaram mais de cinco séculos.

Estou convencido que Zurara referiu precisamente aquilo que na sua opinião foram as principais razões do arranque dos descobrimentos, e que essas razões não se fundamentaram apenas em aspetos de interesse direto, social ou económico, que Zurara não deixa de referir, mas também outros, de caráter ideológico, religioso e geoestratégico. 

Rosa de Santa Maria
Importa sublinhar que os anos iniciais das descobertas vistas pelo prisma económico, são um desastre. A primeira descoberta de relevo, a passagem do Bojador por Gil Eanes em 1434 [Ver NOTA FINAL], demorou anos a conseguir, depois de muitas tentativas frustradas. Quando Gil Eanes finalmente teve sucesso e voltou para Portugal, a única coisa que trazia consigo eram exemplares de uma planta das regiões semidesérticas - que batizaram com o nome de “Rosa de Santa Maria”. 
Para quê manter tal empreendimento, de descobrir novas terras, sem benefícios que minimamente pudessem compensar custos de embarcações e vidas perdidas? Seria certamente algo de difícil compreensão sobretudo para a sua própria época, especialmente depois da tentativa falhada da conquista Tanger em 1437, desastre em que o Infante tinha grandes responsabilidades.

Vejamos então as cinco razões adiantadas por Zurara para explicar as descobertas henriquinas:

1º Curiosidade
Não é uma curiosidade qualquer, a de querer conhecer o mundo, embora Zurara a transmita de forma simples dizendo que o Infante “(...) tinha vontade de saber quais as terras que estavam para além das Ilhas Canárias e de um cabo, que se chama Bojador (...)”. Ao mesmo tempo lamenta que “(...) nem mareantes nem mercadores (...)” tentariam começar com essas viagens, “(...) porque claro está que nunca nenhuns deles se trabalham de navegar senão para donde conhecidamente esperam proveito (...)”.

2º Comércio
Para a sustentabilidade a prazo da empresa era necessário encontrar formas de obter algum tipo de rendimento,  por isso Zurara adianta a relevância dessa possibilidade “(...) se fosse encontrada alguma povoação ou porto cristão (...) poderiam ser levadas muitas mercadorias que teriam bom mercado, pois [além dos portugueses] os naturais (...) não teriam outras pessoas com quem tratar (...)”.

3º Avaliar a área de influência dos mouros
Em permanente conflito com os mouros, tendo por responsabilidade o controlo de Ceuta, e a chefia de uma armada, percebe-se a preocupação do Infante, daí Zurara indicar que “(...) trabalhou o dito senhor de mandar saber, para determinadamente conhecer até onde chegava o poder daqueles infiéis (...)”.

4º Encontrar aliados 
O Infante “(...) queria saber se se achariam naqueles lugares alguns príncipes cristãos, em que a caridade e amor por Cristo fosse tão forte, que quisessem ajudar [no combate] contra aqueles inimigos da fé (...)”. Acreditava-se poder encontrar reinos cristãos longínquos em África, como o de Preste João, a quem Zurara faz uma referência explícita no capítulo XVI das Crónicas da Guiné, revelando que além da costa africana, o Infante disse que desejava ter conhecimento “(...) das Índias e da terra de Preste João (...)”.  

5º Dilatação da fé cristã
A última razão referida por Zurara, é o “(...) grande desejo que havia de acrescentar na santa fé de nosso senhor Jesus Cristo, e trazer a ela todas as almas que se quisessem salvar, conhecendo que todo o mistério da encarnação, morte e paixão de nosso senhor Jesus Cristo, foi obrado a este fim (...)”.

Estas razões parecem facilmente entendíveis e lógicas. Na História de Portugal coordenada por Rui Ramos, no capítulo VII da Primeira Parte – Idade Média (séculos XI-XV), da responsabilidade de Bernardo Vasconcelos e Sousa, sob o título “A exploração da costa africana”, expõem-se resumidamente as “cinco razões” de Zurara, ajuizando-se entre outras considerações, que delas “ressalta uma perspetiva coerente para a ação do infante D. Henrique”.


Também sobre as “razões” que Zurara atribui ao Infante, Damião Peres na sua “História dos Descobrimentos Portugueses” de 1943, uma das obras fundamentais sobre os descobrimentos, declarava que “no seu conjunto, as afirmações de Zurara correspondem a uma visão clara e integral da ação do Infante, bem preferível a qualquer das apreciações modernas. O cronista não no-lo mostra como extrema personificação do espírito de cruzada, nem como a mais perfeita expressão dum miserável interesse mercantil; pelo contrário, situando-se entre os extremos dum elevado ideal ou de inferiorizantes aspirações materiais, criados por autores unilateralmente apaixonados, deixa claramente entrevê-los como alguém em cujo espírito ecoavam todos os anseios, todas as aspirações, todos os interesses que constituíam a vida europeia de então”.

NOTA FINAL:
Estamos no reinado de D. Duarte I, que termina com o seu falecimento em setembro de 1438. D. Duarte, filho de D. João I, era o irmão mais velho do Infante D. Henrique e pai de Afonso V. 

quinta-feira, 5 de maio de 2016

A propósito do livro “Casamento e Divórcio” de D. Alberto Bramão (1865-1944)


Alberto Bramão em 1908
D. Alberto Bramão é meu preferido memorialista da primeira metade do século vinte. É um extraordinário contador de histórias reais porque consegue sempre agarrar os aspetos mais interessantes e pitorescos, com inteligência e humor. A sua ligação com os meios da cultura e da política, do jornalismo e da academia, possibilitaram-lhe conviver com algumas das principais figuras do seu tempo. 
{Recomendo em particular os seguintes livros de memórias: "Recordações" de 1936, "Últimas Recordações" e "Faúlhas dum Lume Vivo", ambos póstumos de 1945.}

Além dos livros de memórias, é da sua autoria o livro “Casamento e Divórcio”, que saiba, o primeiro livro que em Portugal foi escrito a defender a ideia da legalização do divórcio. Data de 1908, sendo editora a Livraria Central de Gomes de Carvalho da Rua da Prata em Lisboa. Bramão tinha sido um colaborador próximo de Hintze Ribeiro (líder do partido regenerador e várias vezes primeiro-ministro) e dedica o livro à memória do falecido chefe de governo. Na altura em que foi publicado, já a grande maioria dos países europeus tinham legalizado o divórcio. Excetuavam-se os países católicos do Sul da Europa, Itália, Espanha e Portugal.

Escreveu Alberto Bramão em "Casamento e Divórcio":

Seria longo explanar as razões de ordem vária que tem retardado a nossa marcha, na ascensão triunfal dos povos cultos para a grandeza e para a felicidade. Antero de Quental apontou, entre os elementos da decadência hispânica, o exagerado catolicismo; Alexandre Herculano viu também no mesmo agente a causa de muitos males.

O espírito fanático, de que mal nos libertou a cruzada das liberdades políticas na primeira metade do século passado [1], deixou raízes fundas e difíceis de extirpar.
O nosso liberalismo, por enquanto, é apenas um aparato casuístico, de que falam os da governação pública; não é uma convicção radicada no sentimento. Dizemos que somos liberais, com mais ou menos ardor, mas não o sentimos. E é por isso que entre nós se dá este facto invariavelmente repetido, com maior ou menor exagero: todas as oposições políticas defendem a liberdade [2], como um pai defende uma filha ameaçada; todos os governos a sacrificam depois, como os fariseus sacrificaram Jesus.

A liberdade é um remédio que todas as oposições receitam, mas de que nenhum governo faz uso.
Esta antinomia [3], esta flagrante contradição entre os atos e as palavras, é a demonstração de que o nosso espírito está ainda tateante no meio das afirmações europeias deste século. Há em nós ainda a sobrevivência da opressão clerical e jesuítica, embargando a livre ação da nossa inteligência, e tirando-lhe aquela força indispensável ás convicções. Temos ainda a nossa liberdade intelectual emaranhada em preconceitos medievais. Somos um povo cujo pensamento se equilibra entre reminiscências heroicas e ficções políticas. A exatidão das ideias, donde deriva o senso prático, não a possuímos; é essa uma das nossas mais acentuadas deficiências.

Não é por razões religiosas, pois sou meio ateu meio agnóstico, mas sou contrário a algumas das chamadas causas fraturantes que ponham em causa aquilo que defendo ser os “bons costumes”. Confesso esse meu conservadorismo. No entanto, sou levado a reconhecer que a instituição do casamento civil tornou-se na prática obsoleta. Fora do enquadramento religioso, a figura do casamento, como figura legal, já não apresenta quaisquer vantagens: as uniões de fato estão equiparadas aos casamentos sob todos os aspetos, se algo estiver em falta é uma questão de tempo a diferença deixar de existir; já se podem casar pessoas do mesmo sexo, as quais também podem adotar crianças, pelo que o argumento de que o casamento se destina principalmente a apoiar a prole do casamento heterossexual está ultrapassado.

Não estou por isso admirado que em França esteja neste momento a ser discutida uma lei que prevê que o “divórcio amigável” possa ser realizado de uma forma simples, bastando ir a um notário e assinar o “contrato de divórcio”, sem qualquer intervenção de um juiz. Realmente, para quê um juiz? E já agora, para quê um casamento quando as pessoas não são religiosas? Mais de 70% dos casamentos dão em divórcio, as chatices não valem a pena.

Quanto à demografia e a necessidade de nascerem mais criancinhas, ao que parece a resolução do problema passará pela entrada de jovens imigrantes, principalmente muçulmanos, refugiados e turcos [4]. Teremos de fazer tudo o que estiver ao nosso alcance, para evitar o que está a acontecer em França, com os filhos e os netos dos emigrantes muçulmanos que continuam a viver em “guetos”, sem qualificações e desintegrados da sociedade.

NOTAS:

[1] O autor refere-se à primeira metade do século dezanove.
[2] Passando para os tempos atuais, traduziria a falta de liberdade nos seguintes termos: opacidade da governação/falta de transparência; centralismo por oposição a descentralização; prepotência dos burocratas, por exemplo do fisco, face ao cidadão que na prática, mesmo tendo evidente razão, não tem meios para se lhes opor; debilidade da sociedade civil e insuficiência das autoridades públicas independentes, fiscalizadoras do estado; insuficiência dos meios judiciais e jurídicos para defender o estado de direito e consequentemente, o cidadão; irrelevância quase absoluta da imprensa escrita e muito particularmente o paupérrimo jornalismo de investigação existente; quase impossibilidade de emergirem novas e significativas empresas, algo que necessitamos em absoluto, fora da lógica de funcionamento do estado ou dos favores políticos, etc. Há nos nossos tempos muitos sinais reveladores da “falta de liberdade” referida por Bramão.
[3] Conflito entre duas ideias.
[4] A Turquia conseguiu agora, através das negociações sobre refugiados, que a Comissão Europeia recomendasse ao Parlamento Europeu e aos Estados Membros que deixassem de exigir vistos aos cidadãos turcos para estadias de curta duração. Inevitavelmente, vamos ter ainda maior número emigrantes turcos ilegais na Europa.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Venceslau de Morais e o Japão III – Alma japonesa


Pintura de Yumeji Takehisa (1884-1934)
Um dos livros mais interessantes de Venceslau de Morais chama-se “Relance da Alma Japonesa”, de 1925. Nessa altura Morais residia no Japão há 27 anos e por isso conhecia muito bem os seus usos e costumes. Tinha abandonado a vida ocidentalizada em 1912, quando saiu do consulado português em Kobe, e vivia desde essa altura em Tokushima, como um verdadeiro japonês.

O capítulo do livro que mais me interessa é o oitavo, “O Amor”. Desde o meu tempo de adolescente, deveria ter 13 ou 14 anos, vivia uma japonesa na minha rua. Nunca troquei uma palavra com ela, mas desenvolvi uma daquelas paixonetas platónicas de adolescente. As únicas emoções cardíacas que tive com ela durante os quase dois anos de fixação, foi a de trocarmos três ou quatro vezes um olhar e um sorriso meio envergonhado, ao passarmos um pelo outro. Depois, descobri que a família tinha ido morar para outro local e nunca mais a vi. Fiquei destroçado, mas naquela idade reciclamos e redirecionamos os nossos afetos com uma velocidade espantosa. No entanto, deixou-me a lembrança de uma figura muito feminina, delicada, de modos suaves, e principalmente despertou em mim a curiosidade em saber mais coisas sobre a vida afetiva no Japão.

A sociedade japonesa mudou muito desde o tempo de Venceslau de Morais, por isso, devemos procurar em primeiro lugar uma informação recente. O jornal diário “Japan Times” de Tóquio, é o mais importante jornal de língua inglesa no Japão. Em Fevereiro de 2011, publicou um artigo de opinião da senhora Kaori Shoji intitulado “O casamento tem pouco a ver com o amor romântico”, do qual se segue uma síntese:

Se quisermos saber porque é que casamos e namoramos cada vez menos, temos de compreender que embora saibamos, em teoria, o que é o amor ou a paixão amorosa, a verdade nua e crua é que não somos suficientemente românticos.
Vejamos o caso de Mitsue, 37 anos e segundo as suas próprias palavras, no auge da sua aparência, disposta a arrumar os seus sapatos altos e a assentar. Ela não está interessada em ter um namorado, mas simplesmente viver com alguém a quem possa chamar “família”. Durante este período de São Valentim planeia usar os seus amadurecidos encantos para conseguir um marido, e está disposta a sacrificar muito – inclusive o seu sonho romântico mantido desde os tempos da juventude.
“Os homens japoneses não compreendem o romantismo” diz Mitsue - que tem escolhido preferencialmente como namorados, americanos e asiáticos do sudeste – “mas paciência, não podemos exigir romance na nossa própria família”.

E aqui está o fulcro da questão. Há esta ideia enraizada de que qualquer coisa cor de rosa, apaixonada ou abertamente sexual, não faz parte do casamento japonês, e consequentemente, no lar da família japonesa. É quase uma regra que os maridos procurem sexo fora de casa, uma vez que esse território pertence à esposa e às crianças e portanto é sagrado. É estranho e é até perverso. Mas essa forma de pensar é prevalente mesmo nas novas gerações, existindo a tendência para se distinguir entre o que é o amor familiar (kazokuai, 家族愛) e o amor relacional (renai, 恋愛). O primeiro diz respeito à vida do dia a dia (seikatsu, 生活 ), o segundo diz respeito ao prazer pessoal, satisfação física, paixão, carinho e outras coisas gratificantes. Há mesmo a noção que se casarmos com a pessoa que amamos, vamos acabar por ficar desapontados e acaba tudo em divórcio. A minha avó tinha uma máxima favorita para esta situação: “escolhe a quinta pessoa da tua lista para parceiro de casamento”. O habitual pedido de casamento do homem japonês é particularmente cru: “queres fazer a minha sopa de missô?”. Há uma fórmula mais antiga mas igualmente questionável: “queres partilhar a minha campa comigo?”.

Mitsue diz que não se importa com estas coisas. Depois de mais de uma década a ouvir declarações de amor ardentes em três línguas diferentes, para ver depois essas relações esboroarem-se, procura agora um compromisso sólido de longo prazo. Ela sabe ao que vai – a vida de casada consiste em comprar ao fim de semana suficiente papel higiénico ou molho de soja para a dispensa e em sacrificar boa parte do tempo de férias a visitar familiares: “mesmo assim quero casar”.
Ela conta casar e seguir uma abençoada vida de dona de casa sengyō shufu (専業主婦), num 2EJC (dois quartos, sala de estar, casa de jantar e cozinha) com um empréstimo a vinte anos. Espera também dormir em quartos separados, como fazem muitos casais japoneses: “Não me importo de partilhar a mesma campa, mas o meu limite é dormir na mesma cama”.

Como descreve Venceslau de Morais o casamento japonês em 1925?

(...) o japonês não casa por amor. O japonês casa para ter um filho, um descendente, um herdeiro, que perpetue o nome da família pouco a pouco desaparecida, à qual então se presta culto no altar dos mortos. Por seu turno, o infante herdeiro casará em tempo próprio, para ter um filho, com iguais garantias e encargos, e assim se irá procedendo sempre, de geração em geração. Curiosos fatos, este do homem branco se lançar inconscientemente, de olhos vendados, apenas impelido por um vago impulso amoroso, na senda do matrimónio, e este do japonês, ignorando o amor, caminhando direito ao seu fim, pedindo à esposa, antes exigindo, uma só coisa: um filho!... O casamento, no Japão, é pois um sentimento profundamente, exclusivamente religioso, derivado do culto da família, do culto dos antepassados (...). Em regra, não há japonês celibatário. Todos casam, e cedo.

Ainda há poucos dias, me dizia um japonês de não vulgar cultura, que, para qualquer dos seus compatriotas, o fato de não ter um filho é considerado uma desgraça. Assim é, e assim foi sempre. Antigamente remediava-se tal desgraça pelo divórcio. A esposa, julgada estéril (muitas vezes injustamente), saía do lar, vindo outra substituí-la. Em todo o caso, antigamente como agora, oferece-se o remédio, embora deixe a desejar alguma coisa, da adoção de filho estranho na família. O sistema de filhos adotivos foi sempre e é muito seguido no império, gozando eles, pelas leis e pelos costumes,  de todos os direitos, e obedecendo a todos os deveres, como legítimos.

Chegado à idade de casar-se, o moço japonês pouco ou nada se ocupa do assunto. Não o interessa. O casamento é, com efeito, e por mais estranho que pareça, mais um evento de família do que um evento dele próprio. É a família que lhe procura noiva, que marca o dia para a festa nupcial; procedendo no caso, em regra, não diretamente, mas por meio de intermediários, que previamente se informam das qualidades morais e outras circunstâncias referentes à futura esposa e dão igualmente informações sobre o noivo à família da noiva. Muitas vezes combina-se um encontro entre a noiva e o noivo, em casa dos intermediários por exemplo, de modo a que se fiquem conhecendo antes das núpcias, e possivelmente se rejeitem um ao outro, no caso muito improvável de surgirem da entrevista repugnâncias invencíveis. E finalmente casam-se, lá vão os dois formar família...

No Japão de hoje já não são as famílias a combinar os casamentos, mas é compreensível que a aceitação por parte da família ainda seja um aspeto de grande relevância para os noivos. A carga religiosa viu também grandemente diminuída a sua importância comparativamente com os anos vinte, algo comum em quase todo o mundo civilizado. O que me pergunto é: serão os japoneses menos sensíveis relativamente aos sentimentos amorosos que os ocidentais, como sugere o artigo do Japan Times? Venceslau de Morais não era nada dessa opinião quando escreveu sobre o assunto nos idos anos vinte do século passado.

O japonês é tão suscetível de sentir o amor passional, com todos os seus transportes afetivos, como o homem branco; ou antes, muito mais suscetível do que este. O exemplo do shinjû, confirma amplamente o que avancei. O que é o shinjû? Vou explicar (...). Um moço qualquer entra em relações de intimidade com uma mulher de má nota, uma dessas raparigas caídas em desgraça, arrastadas ao vício, excluídas ao convívio dos lares calmos e honestos. Surge um motivo, - falta de recursos pecuniários, rumores que a família do mancebo cuida em procurar-lhe noiva, etc. – Vê-se então este compelido a ir confessar aos seus parentes a grave história que o perturba, pedindo-lhes consentimento para casar com a única mulher que ele estima neste mundo. O consentimento é-lhe perentoriamente negado, claro está. Então, ele e ela, - ela talvez, pobrinha sem vontade, submetendo-se passivamente à vontade do homem que a domina, - combinam o último encontro, e suicidam-se juntamente, por qualquer forma.
Chama-se shinjû a este suicídio duplo, não raro no Japão. Parece presidir a este trágico desfecho uma ideia religiosa, falsa; o budismo condena o suicídio, como condena todos os amores desordenados; mas eles, os louquinhos, fabricam um budismo para seu uso, crentes que renascerão para uma nova vida, limpos de impurezas humilhantes e então unidos para sempre...

Mas encontram-se casos ainda bem mais extraordinários; e ides julgá-los. Há apenas uns seis anos, certo professor numa escola primária, na província de Fukuoka, enamorou-se ao mesmo tempo de duas raparigas, professoras também na mesma escola. Resultado final: - suicidaram-se os três, juntamente, num hotel. – Direis, talvez, que se trata de um caso de loucura, ou antes, de três casos de loucura; e direis muito bem, porque a todas as paixões, elevadas aos seus mais tremendos paroxismos, cabe este nome, que nos induz a pôr de parte qualquer investigação que nos perturbe. Em todo o caso, o episódio, tremendamente alucinante, calha bem neste lugar; e vem provar a que estado de efervescência passional, derivada do amor, pode chegar a alma japonesa!...

Deve ainda mencionar-se um processo indireto de ir estudar, agora com deleite, o amor japonês, pelo que a lenda, a poesia e a literatura em geral nos dizem dele. A voz da lenda ou a palavra do autor não contam em geral o que viram; devanearam, contam o que sentem, nada mais; mas sentir uma coisa implica já uma afirmação de possibilidade. A lenda japonesa e a literatura japonesa oferecem-nos interessantes revelações acerca do delicadíssimo sentimento afetivo, que é o amor; levando-nos à plena convicção de que o filho e a filha do país do Sol Nascente sabem amar, como toda a gente sabe amar, universalizando-se o amor.

Reunidos os vários argumentos e considerando as distâncias e as diferenças temporais, parece-me que Venceslau de Morais é mais sensato e tinha razão. A generalização negativa do artigo do Japan Times é certamente exagerada. Mas admito também que quero acreditar, que aquela adorável japonesa da minha juventude, voltou para a sua terra natal  e aí tem sido feliz.