segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Um Conto de Natal por Mário de Menezes

É o segundo ano consecutivo que trago aqui um Conto de Natal escrito por um médico e editado há cerca de 40 anos pelo Instituto Luso-Fármaco, numa publicação destinada a ser oferecida a médicos. O conto seleccionado para este ano, fazia parte do livro “Natal”, de 1968, e tem, ao que parece, um fundo de verdade, pelo que aconselho a ler a nota incluída após o final do conto.

“O Natal do Senhor Reitor”, adaptação de um trecho do livro “Memórias do Último João Semana”
Por Mário de Menezes [Mário Navarro de Menezes, Licenciado pela Faculdade de Medicina do Porto em 1918
]

Santo Aleixo de Além-Tâmega, é um dos povoados mais pitorescos e risonhos de Ribeira de Pena.
Estendido a meia encosta, paralelamente ao rio e muito próximo da sua margem direita, constitui um dos mais atractivos pontos, da atraente paisagem ribeirapenense, para os olhos de quem passa, lá por cima, pela estrada de Vila-Pouca de Aguiar ao Arco de Baúlhe.
Os cultores da literatura camiliana estão familiarizados com o topónimo Santo Aleixo de Além-Tâmega, porque esta aldeia foi o proscénio onde o autor fez representar a lindíssima, comovedora, Novela do Minho – “Maria Moisés”; novela, em que alguns camiliógrafos querem surpreender certos pormenores autobiográficos, como aqueles encontros amorosos da Zefa da Lage com o morgado de Cima da Vila, na Ínsua do Tâmega. Para os biógrafos de Camilo, esses encontros dos pais da Maria Moisés, na remansosa ilhazinha, não eram mais que reminiscências – a vinte e cinco anos passados – da sua vida em Friúme, e das suas entrevistas com Joaquina Pereira, bucólicas e quase infantis a princípio, comprometedoras depois, quando já só o casamento as podia sanar. Remédio único que veio a ser usado, mesmo com um noivo de dezasseis anos, mesmo sem o consentimento do tutor ou do conselho de família.
Precoce em tudo, o juvenil amanuense do tabelião de Ribeira de Pena!...
A aldeia de Santo Aleixo conta ainda hoje, como no tempo de Camilo, uma boa dúzia de casas solarengas, brasonadas umas, outras sem brasão, mas todas curiosas na sua arquitectura regional, setecentista. À roda delas e entre elas, acumularam-se as moradias de gente mais modesta, em geral tributária dos senhores proprietários – seus caseiros, jornaleiros e artífices.
Esta grande e airosa povoação faz parte do concelho de Ribeira de Pena cuja sede lhe é fronteira, na margem esquerda do Tâmega, portanto. E, para garantir a comunicação entre as duas margens, apenas existia antes de 1913, o chamado poldrado do Caneiro. Trata-se de uma pseudo-ponte rústica, constituída por padieiras estendidas sobre pés-direitos, quase à flor da água, e que poucos dias de chuva são suficientes para fazer submergir. Não há um só Inverno em que isto não suceda, uma e muitas vezes; e já do nosso tempo, houve um ano em que o poldrado esteve cinco meses, consecutivos, sem descobrir. Isto foi uma raridade, é certo; mas os períodos de submersão de várias semanas, é percalço todos os anos.
Ora, quando isto acontece, acontece, simultaneamente, que a corrente de água, tornada volumosa, se torna impetuosa, o que automaticamente suspende o trabalho das raríssimas barcas que, no Verão, atravessam o rio. É claro que, nestas emergências, o povo de Santo Aleixo tinha que se governar com a prata da casa, cortado o contacto com as coisas e as gentes da margem de além. Então, faltava tudo quanto a prata caseira não contivesse: o médico, a botica e os géneros de mercearia, eram as faltas mais prementes.
Esta coisa foi assim até 1913, ano em que um benemérito, coadjuvado por outros microbeneméritos, construiu uma ponte-pênsil, que, ao correr de alguns decénios, prestou inestimáveis ajudas à gente da terra. Era (e é, ainda) uma curiosa engenhoca aérea feita com arame zincado de ramadas, e fasqueada de madeira de carvalho, onde mal cabem três pessoas à largura, e onde os passantes quase chegam a enjoar, tão intenso é o seu balanço. Seja como for, o episódio joco-sério que se vai relatar, já não era possível acontecer depois que o grande empreendimento foi aberto ao trânsito.

Foi, até à morte, reitor da freguesia do Salvador, o senhor padre Álvaro, senhor de ascendência heráldica, natural de Santo Aleixo. Com a família muito próxima na terra onde nascera, nunca o abade se resignou a passar os dias festivos do Natal com os seus paroquianos, preferindo sempre a companhia dos seus familiares, no próprio ambiente onde se criou.
Ora, naquele ano, o padre resolveu deixar o Salvador mais cedo do que era habitual; visitava, de caminho, a Feira dos 20, feira anual da terra, que se realiza pertinho do poldrado, e finda ela, seguia directamente para Santo Aleixo. Mas a chuva, que durante alguns dias caíra do céu em catadupas, e que, no dia 20, de todo amainara, talvez para deixar que se fizesse a feira de ano, recomeçou a cair ao fim da tarde, e, quando o padre ao lusco-fusco daquele dia quase solsticial, atravessou o rio para além, já a água começava a cachoar nas padieiras do poldrado, com promessa evidente de o cobrir por completo, em poucas horas, se a chuva não cessasse de cair.
- Que sorte, hein!... Amanhã já não passava… - dizia, com os seus botões, o sacerdote, ao reparar no engrossamento da corrente.
Festivamente recebido, como sempre, pelas pessoas de família e pelos vizinhos, que deliravam com a convivência daquele conterrâneo, fidalgo e folgazão, a noite passou-a a receber amigos, a fazer as suas costumadas libações de verdasco, e a ouvir, regaladamente, no conchego alegre da ladeira, a chuva intérmina e ininterrupta que, com fragor, desabava sobre a terra.
Ora, na manhã seguinte, ainda na cama, ainda a bocejar e a pestanejar, deu fé o reitor de que, numa sala ao lado, decorria uma conversa em que a palavra bacalhau se repetia, amiúde, de mistura com referências à chuva e ao poldrado. Curioso e até um pouco suspeitoso, chamou e perguntou:
- Ó senhoras!... Então que se discute, logo de manhã?...
Discutia-se simplesmente que, por um atraso de expedição dos armazenistas do Porto, a loja da Cancela – então o único fornecedor de mercearia para a vasta região ribeirapenense – não pudera distribuir o bacalhau do Natal naquele dia 20, como era costume antigo, tendo anunciado que, sòmente no seguinte dia, a venda do artigo, entre todos nobre, seria possível.
Mas, como ir agora à Cancela, se no poldrado já se não passava desde a meia noite, e as torrentes de água continuavam sempre a engrossar o rio? Eis o assunto da conversação que as senhoras da casa entretiveram na saleta ao lado, e que, desde logo, fez arrepender o desolado padre de ter vindo.
- Iremos consoar sem bacalhau? Perguntava ele, compungido, à irmã e à cunhada.
Mas, felizmente, estavam ainda na manhã de 21 e, até 23 à tarde, havia muito tempo para o demolhar. Ponto era que se estancasse aquela maldita água, que, indiferente, continuava a despenhar-se por todos os córregos, por todos os pendores, para vir lançar-se, espumosa e suja, no sujo rio Tâmega, que, a cada momento, aumentava o seu volume e a impetuosidade do seu curso.
E todo o santo dia, o padre, enfiado, entanguido, com um xaile da cunhada aos ombros, andou pelas salas, de ronda às janelas, a inspeccionar o Sul, a inspeccionar o Oeste, a perscrutar as nuvens, na esperança de que elas se rasgassem e o sol, ao menos o azul do céu, surgisse finalmente por entre elas, triunfante, promitente de estiagem e… de bacalhau cozido. Mas nada. Sempre o mesmo negrume em todo o lado; sempre a mesma cavalgada de nuvens escuras na direcção nordeste e, de caminho, a derreterem-se em água, ensopando a terra, inundando os campos ribeirinhos…
- Com efeito!... – repetia o padre a cada passo – Natal sem bacalhau!... Pra que diabo saí eu do Salvador?...
E é que não havia recurso de improviso que, ao menos, atenuasse o mal. Toda a gente da terra, a contar com a costumada distribuição do dia 20, não quisera abastecer-se anteriormente, até mesmo porque o senhor Augusto de Cancela se ufanava, com razão, de apresentar sempre, nessa quadra festiva, os melhores exemplares da espécie – aqueles velhos bacalhaus de grande vulto e de lascas grossas, cuja vista era bastante para fazer crescer água na boca aos entusiastas.
Por isso, naquele ano, se não havia em Santo Aleixo bacalhau especial para cozer, igualmente o não havia, de menor categoria, para fazer uns tristes pastéis ou uns filetes, que alguns usavam no jantar da consoada. O reverendo, atormentado e desesperado, perguntava a cada pessoa que encontrava:
- Também foste esperto, como lá a minha gente? Natal sem bacalhau… Cáfila de brutos: guardam tudo para a última hora e agora os outros que aguentem…
E despedia, soltando uma obscenidade enraivecida.
E assim se passou o dia 21 e depois o dia 22: água sempre a cair do céu, água sempre a engrossar o rio.
Às noites, era velho costume dos seus amigos conterrâneos, irem jogar o solo com o abade, para lhe aligeirarem as horas longas daquelas noites longas. E era também costume velho do reitor, ter sempre a seu lado, junto dos feijões-fichas que serviam de marcas para o jogo, uma avantajada pichorra de verdasco com que, de pouco em pouco tempo, ia reacendendo os copos apagados dos parceiros. Isso obrigava as senhoras da casa a estarem atentas ao repetido apelo do abade, a cada passo anunciado, animadamente:
- Venha vinho… Venha vinho…
Nas noites daquele ano, de igual modo a mesa do solo se montou e a pichorra da vinhaça se instalou. Mas o atribulado sacerdote, desatento do jogo, sempre de ouvido preso à chuva que caía, mal se lembrava de beber e de reabastecer os seus companheiros, emudecidos e tristonhos com a mudez e a tristura do seu anfitrião. Por força de hábito, ainda, de longe a longe balbuciava o estribilho:
- Venha vinho…
Mas o brado saía-lhe frouxo, sem volume e sem interesse. E os próprios parceiros, acabrunhados, contagiados pelo desinteresse e alheamento do reverendo, esqueciam-se também de esvaziar os copos; e, uma vez ou outra, jeremiavam em voz baixa, subalterna e triste:
- Uma destas!... Passarmos o Natal sem bacalhau, senhor reitor!...
Em 22, à noite, tinham desaparecido todas as esperanças, porque, ainda mesmo que deixasse de chover, a altura das águas, em cima do poldrado, era tão grande, que, somente decorridos alguns dias de estiagem, a travessia voltaria a ser possível; e por isso, o reitor, ao enfiar-se nos frios lençóis de linho, procurou compenetrar-se dessa atroz realidade e conformar-se serenamente com ela. Mas, toda a grande noite volteou na cama sem lograr descanso nem resignação; e, logo ao repontar da madrugada, largou, disparou, para ir dar execução à artimanha que engendrara, durante a vigília.
Veio, acompanhado de um criado, para a beira-rio, arrostando corajosamente com o temporal que continuava a fustigar. E, do lado de lá, o inquieto padre procurava descobrir na margem fronteira, alguém que pudesse ouvir as suas ordens e se comprometesse a cumpri-las. E essas ordens, dadas em altos brados, em frases muitas vezes perdidas e muitas vezes repetidas, porque o marulhar das águas e dos ventos dispersava a maior parte das palavras, foram as seguintes:
- Que, em seu nome, dissessem aos criados da Residência, no Salvador, que comprassem, onde os houvesse, uma dúzia de foguetes da maior potência; que depois se munissem de uma corda de carro, pouco grossa, e da loja da Cancela trouxessem os melhores bacalhaus lá existentes. Isto feito, comparecessem ali, num areal da Azenha da Barca, para receberem novas instruções.
Os criados da Residência, quando lhes transmitiram as ordens do patrão, obtemperaram, atónitos:
- Foguetes?!... Para que diabo quererá o patrão foguetes, neste tempo?... E onde havemos nós de ir comprar foguetes, com um temporal assim?...
Coitados dos pobres… Tiveram que calcorrear todo o santo dia e parte da noite, debaixo de chuva, para conseguirem encontrar no fogueteiro de Ribas, em Celorico de Basto, a única meia dúzia de foguetes que o fabricante tinha em stock, e que, em vez de poderosos bombardeiros, como o padre queria, eram vistosos e garridos foguetinhos, de lágrimas de cores.
Toda aquela tarde, o reitor, impaciente, andara a descer e a subir o carreirinho que, da povoação, conduz à margem do rio: para baixo acicatado pela esperança de ver chegar os emissários propiciadores; para cima fustigado e empurrado pela chuva e pelo vento, que não consentiam demoradas permanências à beira-rio. Até ao anoitecer, porém, ninguém compareceu na azenha; e essa noite, com a da véspera, foram, certamente, as mais trabalhosas e mais dolorosas de toda a vida do atribulado sacerdote.
Mas, na manhã seguinte, logo ao alvorecer, vieram avisar que os homens da Residência estavam à espera na casa do moleiro da Barca, onde se haviam recolhido, encharcados, por noite alta.
O padre saltou logo da cama, alvoraçado e esperançado. Já era tarde, naquela manhã de 24, para se conseguir dessalar satisfatoriamente o bacalhau; mas tratando com águas fervescentes, de manhã à noite, ainda se arranjaria a que ficasse escapatório. E depois, c’os diabos, um tudo-nada de sal a mais até convinha: puxaria melhor uns quantos copitos pela festiva noite dentro.
O tempo mudara, finalmente. Já, durante a noite, se ouvira zoar a presa do Caneiro, sinal atmosférico infalível de vento nordeste. E esta mudança contribuiu também para que o reitor, ao chegar ao rio, aparecesse a esfregar, regaladamente, as mãos geladas, e abrir um largo sorriso de universal confiança e saudação: ao belo sol que começava a dourar o viso da serra fronteira, e aos belos espécimes de bacalhau lombudo que os criados ufanamente lhe mostravam de lá.
Mãos à obra. A traça que a gula do reitor arquitectara, não era mais do que a aplicação daquilo que ele vira, certa vez, num exercício de socorros a naufragos, na baía de Leixões: a montagem de um cabo entre as duas margens, mais ou menos como vira fazer além, entre a beira-mar e o suposto barco naufragado.
Naquela manhã, as instruções que vinham de lá ouviam-se muito mais distintas que as da véspera, sempre interferidas pelo vento e pela chuva; e, logo que a criadagem se inteirou do planeamento eclesiástico, o trabalhinho começou.
O padre, agora animadíssimo, esfregava e tornava a esfregar as mãos entorpecidas pelo frio, ao mesmo tempo que, de si para consigo, ia dizendo:
- Nada… Já não sou eu que vou passar o Natal sem bacalhau!...
Atou-se a ponta da corda à vara dum foguete, e o murraco aceso foi logo aproximado do polvorim que negrejava na extremidade do canudo.
- Aponta para aqui – recomendou o reitor, atento aos mais pequenos pormenores da operação.
Mas o fogueteiro improviso, habituado, desde sempre, a ver subir os foguetes em direcção ao céu, precipitou-se, não atendeu à recomendação, e deixou ir o foguetinho verticalmente, livremente. E, uma vez lá em cima, a peça pirotécnica deu os seus três estalos, uns atrás dos outros, abriu as suas rosas coloridas, e mergulhou na água barrenta do caudal, de onde foi rebocado pela corda.
O sacerdote, quando ouviu os três estalos repetidos, e viu entornar-se a cornucópia de flores variegadas, ia desmaiando de desespero:
- Que grandíssimos burros, Santo Deus!... Então estes idiotas não foram trazer foguetes de lágrimas, de três respostas?!... Raios vos partam, animais…
Era preciso recomeçar. E o padre, sempre absorvido pela sua empresa ingente, redobrou as recomendações para o segundo tentâmen:
- Agora cuidado, suas bestas; apontem bem para este lado. Isso assim… - comandava ele, ansiadamente.
Mas a segunda tentativa falhou também, como, por igual, falharam a terceira a quarta e a quinta. Os foguetes eram, já de si, de força muito limitada, e o trambolho da corda, cada vez mais embebida de água, constituía um travão adverso ao progresso deles. O reverendo enfurecia-se, desesperadamente, sempre que via os foguetes afocinhar na água, indiferentes à sua grande cólera e indiferentes ao grande temor que fazia tiritar a criadagem da Residência – nesses bons tempos idos, em que a criadagem ainda se deixava tiritar, frente a patrões irritados, por mingua do rico bacalhauzinho para o seu Natal.
Agora, além, já só existia um último foguete. Mas estavam lá também as três riquíssimas folhas do fiel amigo, a oferecerem-se, languidamente estendidas no areal da praia, com o seu indulto salino a rebrilhar ao sol, com as suas imaginadas fêveras, tenrinhas, a atenazar o padre.
- Com seiscentos milheiros de diabos!... Eu não conseguirei passar, ao menos, um dos peixes?... – balbuciava, já meio sucumbido.
Subitamente, pareceu que o amofinado sacerdote serenara. Era evidente que ao seu espírito esquentado, afluíra qualquer ideia nova, promissora, porque a sua face, vincada e inquieta, se tornara, de repente, tranquila e confiada.
Então, novas instruções dimanaram da margem direita, logo executadas pelos aterrados servidores da Residência, que batiam a sua maleita na margem fronteira.
Punha-se de lado a corda-trambolho, responsável principal dos fracassos anteriores; e, já que não era possível fazer-se a montagem do cabo transmissor, ir-se-ia agora limitar a transmigração bacalhoeira ao máximo possível, que fosse, ao menos, o mínimo indispensável.
Ao bacalhau mais cachaçudo, cortaram-se os grossos lombos, de lascas acamadas e rangentes, e atou-se, solidamente, essa peça apetitosa e preciosa à vara do foguete, a fazer corpo com ela, do lado contrário ao canudo-rastilho, para evitar a acção incendiária das faúlhas descendentes.
O eclesiástico, se, até então, estivera sempre com todos os sentidos amarrados às operações fracassadas, agora foi com a ansiedade que as almas confrangidas põem na luz da derradeira esperança, que orientou o auspiciado trabalho. E foi talvez por isso, que, desta vez, as recomendações finais aos seus colaboradores, foram emitidas num tom suplicativo, de quase humildade:
- Agora vede lá, rapazes… Não erreis desta vez, por amor de Deus… Aponta bem para aqui… Isso, assim, Manel…
Viu-se o morraco incendiar a pólvora do rastilho; e viu-se o foguete, um momento hesitante nos dedos do fogueteiro, como se estudasse o seu itinerário em função da carga a transportar, erguer-se um pouco no ar, e seguir depois, aos sacalões, em direcção à outra margem. Mas, talvez em razão desses movimentos sacudidos, zigue-zagueantes, como que a quererem alijar o contrapeso; acaso também porque as fagulhas tenham incendiado o atadeiro – o que é certo é que o peregrino naco de bacalhau lombudo, se desprendeu da cana e mergulhou, imediatamente, nas fauces vorazes do rio infame. E, uma vez sacudida a carga odienta, o foguetezinho estrondeou festivamente as suas três respostas, espargiu, no ar diáfano da manhã soalheira, o ramalhete das suas flores vistosas, e veio cair, extinto e para sempre inútil, mesmo aos pés imobilizados e descoroçoados do senhor reitor.

........................................................FIM

NOTA IMPORTANTE
Em http://www.staleixoalemtamega.com/ (FREGUESIA DE SANTO ALEIXO DE ALÉM-TÂMEGA - RIBEIRA DE PENA) pode ler-se:

Ponte Pênsil
«Perdida no meio da vegetação ribeirinha do Rio Tâmega, a unir as duas margens e populações de Santo Aleixo de Além Tâmega e Salvador, em Ribeira de Pena, encontra-se uma Ponte de Arame ou Ponte Pênsil, cuja construção remonta a 1913. A Ponte está suspensa por arames retorcidos sobre si mesmos. E são mais de uma centena que se contorcem num cumprimento de quase 20 metros. A força de suspensão enterradas nas fragas, em ambas as margens do rio Tâmega, oferece a garantia de segurança na sua travessia. Um percurso que é feito pelo passadiço de 1,5 metros de largura em madeira, que é também a base dos cabos de arame que dão origem às paredes laterais da estrutura.
Actualmente fora do uso para que foi construída, esta “ponte do engenho” já mereceu a atenção do Instituto Português do Património Arquitectónico (IPPAR), apontando como peculiaridade do monumento o facto de a ponte estar suspensa por arames retorcidos sobre si mesmos. Actualmente, a manutenção da ponte está a cargo da Câmara Municipal de Ribeira de Pena que, no final do ano passado, procedeu à recuperação do passadiço de madeira. Cuidados que, no entender do IPPAR são imprescindíveis, considerando mesmo que, este monumento deveria estar classificado face ao valor municipal que representa. Enquanto tal não acontece, uma certeza persiste:
Este ex-libris da região de Trás-os-Montes continua suspenso, à espera de uma visita por parte dos mais curiosos.»
História da sua construção
«Conta a tradição que a Ponte de Arame de seu nome nasceu de uma ideia de um padre engenhoso, Álvaro Pimenta, natural de Santo Aleixo de Além Tâmega mas, pároco do Salvador.
Estando o Natal à porta e vivendo-se, naquele ano, um Inverno excepcionalmente rigoroso, o padre viu-se impedido de ir a casa em época tão importante. Mais ainda, não havendo em Santo Aleixo nenhum local de abastecimento dos mantimentos para a consoada, com o rigor do clima a não acalmar, as águas tumultuosas a provocar uma perigosa correnteza, a travessia para a outra margem para comprar presentes e o tradicional bacalhau para a consoada, estava posta em causa. Antevendo uma quadra de abstinência e de jejum, teve ideia de fazer chegar o bacalhau do lado de lá do rio utilizando um cabo de arame e uma roldana. Mas há também quem diga que o impaciente padre tentou resolver o problema do abastecimento do bacalhau, recorrendo ao sistema de envio por foguetes, com a ajuda de um seu empregado que estava do lado de lá da ponte. Contudo, o dito não teve competência para o efeito ou a força do foguete não foi a bastante, para que o feito não tivesse sido feito. E assim, foram dados os primeiros passos para a união das freguesias de Santo Aleixo de Além Tâmega e de Salvador, pelas suas margens.»

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Milú (1926-2008)

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“Milú, nome artístico de Maria de Lurdes de Almeida Lemos (Lisboa, 24 de Abril de 1926 - Cascais, 5 de Novembro de 2008)
Presença assídua na rádio, onde aos dez anos começou a cantar. Estreou-se no cinema, aos doze anos, com uma breve participação no filme A Aldeia da Roupa Branca, de Chianca de Garcia, ao lado de Beatriz Costa.
Em 1943 interpretou Luisinha de O Costa do Castelo, de Arthur Duarte. Volta a ser dirigida pelo mesmo realizador nos filmes O Leão da Estrela (1947), O Grande Elias (1950) e Dois Dias no Paraíso (1958).
Participou ainda em filmes de Manuel Guimarães, Costantino Esteves, Armando de Miranda, Perdigão Queiroga e, já em Espanha, de Ladislao Vajda. Vivendo uma época de ouro do cinema português, entre os anos 40 e 50, a sua beleza e fotogenia encantou gerações de portugueses e portuguesas, pelo que a compararam às estrelas de Hollywood. Chegou a filmar em Espanha.
A sua voz imortalizou músicas como A Minha Casinha e Cantigas da Rua. No teatro salientam-se as suas interpretações em espectáculos de revista, nomeadamente no Teatro Avenida e Teatro Variedades.
Viveu no Brasil entre 1960 e 1968.
O filme Kilas o Mau da Fita, de José Fonseca e Costa (1984) foi a sua última aparição no cinema.
Foi distinguida pela Secretaria de Estado da Cultura com uma condecoração de mérito artístico. Em 2007 foi agraciada com a Ordem Militar de Sant'Iago e Espada, pelo Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva.”
..................................... [em http://pt.wikipedia.org/wiki/Mil%C3%BA]

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

A Cimeira Luso-Brasileira e a Crise Financeira

Texto extraído do excelente blogue brasileiro:
http://democraciapolitica.blogspot.com/
Mantive o português do texto original. É bom que todos nos habituemos a ler as coisas uns dos outros.

[LULA DEFENDE PAPEL DO ESTADO COMO REGULADOR DO SISTEMA FINANCEIRO, em
http://democraciapolitica.blogspot.com/2008/10/lula-defende-papel-do-estado-como.html]

O site “Carta Maior” ontem postou o seguinte artigo de Luciana Lima, da Agência Brasil:

"O sistema financeiro tem obrigação de ganhar o seu dinheiro em coisas que gerarão empregos, produtos, riqueza. Não podemos permitir que o sistema financeiro mundial brinque com a sociedade.

Não podemos admitir que alguém fique rico apenas trocando papéis e poucas vezes se gerou um paletó, uma bota e um alfinete", disse o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na abertura da 9ª Cúpula Brasil-Portugal, em Salvador.

SALVADOR - “Chegou a hora da política”, disse ontem (28) o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao defender o papel do Estado como regulador do sistema financeiro.

Falando na 9ª Cúpula Brasil-Portugal, em Salvador, Lula se colocou contrário aos que defendiam o liberalismo econômico sem a interferência do poder público.

“Teve uma época, por muito tempo, em que os políticos andaram de cabeça baixa diante do neoliberalismo. O que estou defendendo não é o Estado se intrometer na economia, mas é o Estado que tenha força política para regular o sistema financeiro”, disse o presidente no pronunciamento que fez, ao lado do primeiro-ministro de Portugal, José Socrates.

“Fomos eleitos, assumimos compromissos com o povo, e o Estado, diante da crise mundial, volta a ter papel extraordinário, porque todas essas instituições que negaram o papel do Estado na hora da crise procuram o Estado para socorrê-las da crise que elas mesmo criaram”, afirmou Lula.

O presidente também voltou a criticar as empresas que especularam e tiveram prejuízos com a crise mundial.

“As empresas brasileiras têm grandes investimentos, rodovias, ferrovias, siderurgia, portos, agricultura. Trabalhamos honestamente por seis anos para por a economia num padrão respeitável no Brasil inteiro. É por isso que juntamos US$ 207 bilhões em reservas. É por isso que fizemos ajustes fiscais.

Entretanto, por que estamos vivendo sinais da crise? É porque alguns setores resolveram investir em derivativos, fazer um cassino.

Portanto quem foi para a jogatina perdeu. Portanto, ninguém tinha o direito de tentar, diria de forma ilícita, mais que aquilo que o próprio sistema produtivo oferecia ao país”, disse o presidente

Lula enfatizou que os setores da economia devem concentrar seus esforços em ganhar dinheiro com a produtividade. “O sistema financeiro tem obrigação de ganhar o seu dinheiro em coisas que gerarão empregos, produtos, riqueza. Não podemos permitir que o sistema financeiro mundial brinque com a sociedade.

Não podemos admitir que alguém fique rico apenas trocando papéis e poucas vezes se gerou um paletó, uma bota e um alfinete”.

O primeiro-ministro de Portugal, José Socrates, apoiou a colocação do presidente Lula e disse que em Portugal a ação do governo foi a mesma tomada no Brasil, com o objetivo de minimizar os efeitos da crise na economia interna: a de dar mais liquidez aos bancos.

“Concordo com o presidente Lula quando ele diz que chegou a vez da política.

Esse é um momento decisivo e Portugal e Brasil querem ação, não inação, fingir que nada aconteceu”, afirmou o chefe de Estado de Portugal, ao se referir às ações para o combate à crise econômica.

Para Socrates, a crise mundial funcionou como um divisor de águas. Ele ressaltou que não se trata de uma crise cíclica e sim de uma crise grave, “que acontece apenas uma vez na vida de cada pessoa”.

“Existe um antes e um depois da crise mundial. Antes, existia um pensamento único de que qualquer intervenção do Estado seria de forma burocrática, com finalidade de aumentar imposto. Hoje há o entendimento de que é necessária a ação da política para construir essa nova ordem mundial econômica de uma globalização mais justa”, ressaltou.
Lula e Socrates também se uniram na defesa do fortalecimento da União Européia e do Mercosul. “Se não estivéssemos na zona do euro eu não sei que seria de Portugal”, disse Socrates.”

sábado, 18 de outubro de 2008

Encantada Ilha da Madeira

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A Boa Nova

Donde vem a caravela
que sobe grácil o rio?
Toda a gente acorre a vê-la
voltar donairosa e bela
ao Tejo, donde partiu.

- De que singular viagem,
de que distante jornada
regressa a sua equipagem,
que vem de glória nimbada(1)?
- Que heróica Aventura a leva,
que alto destino a conduz
sulcando p’la vez primeira
um mar coberto de treva
e agora cheio de luz?

- Como feliz mensageira,
traz ao Reino, pressurosa,
esta nova de assombrar:
- uma ilha, a mais formosa
que a mente possa sonhar,
surgiu virgem, viçosa,
dentre o mistério do mar.

Nela toda a Natureza
dá-se aberta num sorriso.
Terra de tanta beleza
é, decerto, o Paraíso.
Não cobrem distantes céus
mais viridente(2) jardim:
- parece ter vindo assim,
há pouco, das mãos de Deus!

Ante a imponência silvestre
dessa terra abençoada
fica a alma extasiada
de beleza e de emoção:
- é o Paraíso terrestre,
mas sem Eva e sem Adão…

A Deus por certo é devida
a alta glória de a achar:
- jóia sem par escondida
na bruma densa do mar.

A nova corre ligeira,
comove toda a Nação:
- foi descoberta a Madeira,
A terra mais feiticeira
De todo o mundo cristão!

Naquela hora que passa
dê-se tréguas à moirama,
que a audácia heróica da Raça
em Fé mais viva se inflama!

É tal o contentamento,
tamanha a satisfação,
que o povo a todo o momento
fala de Zarco e de Tristão
com igual aprazimento.

E já o Senhor Infante
(a quem cabem as maiores
honras do Descobrimento),
de alegria radiante,
cumula os Descobridores
de mercês, louvores vários
e – galardão sem igual! –
faz deles os Donatários
da jóia de Portugal.

José Teodoro Correia, 1890-1955.
(do livro “Ciclo das Caravelas” de 1946)
em Almanaque Bertrand, 1948.

(1) Ou aureolada (auréola, círculo de luz que rodeia a cabeça das imagens dos santos e pessoas divinas)
(2) Ou verdejante


[Claro que nos nossos dias, a viagem para a Madeira faz-se sobretudo de avião. Não resisto por isso, a indicar a visualização no interessantíssimo blogue http://irmaosasas.blogspot.com/, de um filme com a aterragem no Aeroporto do Funchal, em http://irmaosasas.blogspot.com/2008/09/aterragem-no-aeroporto-do-funchal.html]

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

O Charlatão [texto de de Miguel Torga, vídeo de José Mário Branco]



Por qualquer razão, e se calhar no meu inconsciente, ligada à minha preocupação com a crise económico-financeira que vivemos, fui esbarrar com este fabuloso texto do nosso Miguel Torga. Não resisti a acompanhar com a grande música de José Mário Branco...
Já nos bastavam os problemas que tínhamos, para aparecer agora esta crise financeira inventada por uns idiotas irresponsáveis, principalmente em Wall Street.

- Ora aqui temos nós a última descoberta científica do século!
Falava de cima de uma cadeira, em pé, ao lado de uma mesa, sobre a qual estava um grande baú aberto. Passeava-lhe um rato branco pelos ombros, e era impossível fugir à magia daquela enorme cabeleira, que lhe coroava uma bela fronte de lutador. Só vinha na feira dos vinte e três. Armava a tenda logo pela manhã, e daí a nada já tinha freguesia a beber-lhe as palavras. A sua voz era sugestiva, funda, com quantos tons eram precisos para encantar homens de todas as terras e de todas as raças.
- Façam favor de ver…
E só quem era cego é que não via.
- Vou agora contar-lhes uma anedota.
Os que já faziam parte da roda arrebitavam as orelhas; os que iam no seu caminho paravam e ficavam maravilhados, a ouvir. No fim, todos se riam, que a coisa tinha na verdade, graça.

Os tempos iam de mal a pior. Deus sabe com que vontade quem tinha os seus precisos para o resto do ano os vinha vender por qualquer preço. Por isso, depois de duas lágrimas dadas ao balido de uma ovelha, à mansidão de um porco criado a caldo, ou à brancura de uma peça de linho fiada à luz da candeia e a horas tiradas ao sono, era um alívio perder meia hora ali. Iam-se embora as canseiras, os cuidados, e a feira passava a ter o ar de festa que o coração de todos desejava.
E não pensasse lá ele que acreditavam nas aldrabices que dizia do elixir! Quem? Mas, enfim, eram só dez tostões, e às vezes, para um remedeio…
- Vou agora mostrar a V. Ex.as a autêntica víbora da felicidade!
Excelências! Estava a brincar, ou a falar a sério? Mas, ao fim e ao cabo, quem é que não gosta, uma vez na vida, de ser tratado por excelência? E um de Almalaguez perdeu a cabeça e lá comprou aquele “talismã da Ventura” por cinco escudos.
- Bem burro! – não se conteve uma criada.
Mas estava era com pena de a não ter comprado ela.
Já nova maravilha saía das profundezas do baú.
- Sarna, pruridos, eczemas, impingens, lepra, furúnculos, tudo quanto uma pele humana possa conceber, é enquanto o Demónio esfrega um olho! Vejam: pega-se na ulceração, um bocadinho de pomada em cima, ao de leve e pouco, que é para poupar, e não se pensa mais nisso! Cinco tostões apenas! Só a caixa vale quinze! Aproveitem! Aproveitem, que numa drogaria custa-lhes dois escudos!
Até um soldado estendeu o braço à pechincha.
- Tu para que é que queres isso? – interrogou, espantado, um colega.
- Sei lá!
Não prestava: era a convicção geral. Mas aqueles olhos a fuzilar o mal e a curá-lo; aquele rato branco, de quando em quando parado e atento às palavras do dono; aquela mão erguida ao alto como um destino, turvavam a vontade do mais pintado.
- Aldrabão!... – gritava-lhes o resto do bom senso na agonia.
Pois sim. Era ouvi-lo. Era esperar um instantinho e então se veria.
- Eu sei que há muitas pessoas que me chamam aldrabão. Coitadas! Onde pode chegar a ignorância humana! Ora vejamos…
E pantomineiros, daí a pouco, passavam a ser aqueles indivíduos que todos os da roda tinham como pessoas fora do alcance de qualquer suspeita. Mas ele? Pelo amor de Deus! Quem é que tinha a coragem de vir assim, honestamente, explicar os factos, receber sugestões, pôr-se, numa palavra, em contacto directo com o respeitável público? Aldrabão! Sempre a mesmíssima coisa! Mas não era isso que lhe fazia cabelos brancos. Dava o mundo inteiro como testemunha da sua isenção e da sua honradez…
- Duvidam?
O silêncio de todos bastava-lhe como resposta.

Em “Rua” de Miguel Torga, 1942.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Durão Barroso sobre a crise financeira

É um artigo publicado ontem no International Herald Tribune, a edição internacional do New York Times. Chama-se “Para lá das fronteiras” e é assinado pelo presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso. Traduzimos, não o artigo completo, mas apenas aquilo que nos pareceu o essencial. Para ler e reflectir.

O.artigo.completo.em.inglês.em http://www.iht.com/articles/2008/10/02/opinion/edbarosso.php

A rapidez e a dimensão da crise financeira que se iniciou nos EUA há cerca de um ano, causou ondas de choque em todo o mundo. Ninguém está a salvo. (…)
O que interessa agora é que os dirigentes políticos dêem as respostas adequadas – para parar com a crise no imediato, proteger as poupanças dos cidadãos e assegurar que os negócios tenham suficientes créditos para as suas necessidades, e depois pôr no terreno um melhor sistema de administração para o futuro. (…)
O nosso principal objectivo deve ser restituir a plena confiança no interior do sector financeiro, bem como a confiança do público no sistema financeiro. (…)

Esta semana, a Comissão Europeia está a fazer propostas para a melhoria da qualidade do capital detido pelos bancos e para criar colégios de supervisores para bancos trans-fronteiriços dentro da UE. Nas próximas semanas apresentaremos um novo sistema de regulação das agências de “rating” do crédito.
Quanto mais depressa os estados membros e o Parlamento Europeu adoptarem estas propostas, maior o impacto na recuperação da confiança. (…)

Para além do vasto conjunto de medidas acordadas pelos ministros das finanças e das propostas actuais da Comissão, penso que podemos fazer mais:
Em áreas como a supervisão da UE de bancos trans-fronteiriços, assegurar a concertação e a rapidez na implementação das medidas. Esquemas mais consistentes de garantia dos depósitos em todos os estados membros da UE. E novos mecanismos para avaliação de “activos complexos”, para evitar a volatilidade dos frágeis preços do mercado e para assegurar que os bancos da UE fiquem em condições idênticas uns com os outros, quando falamos por exemplo de temas como a aplicação de regras contabilísticas.
É também necessário aprofundar a questão dos vencimentos dos executivos, a partir das recomendações já elaboradas pela Comissão em 2004. Tivessem elas sido adoptadas mais generalizadamente e teríamos talvez evitado alguns problemas. (…)

Com a nossa experiência de combinar capacidade técnica com visão política, a UE tem muito a oferecer não apenas para os europeus como também para um mundo à procura de um sistema melhor de regulação dos mercados financeiros.
A proposta do Presidente Nicolas Sarkozy para uma conferência internacional é uma ideia excelente: vivemos com o actual sistema mais de 50 anos, mas devemos aos que foram atingidos pela crise, um trabalho sério para encontrar as formas de assegurar estabilidade e prosperidade no futuro.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Anselmo Ralph: voz de uma nova Angola

Agora que em Angola nasce uma nova esperança para os angolanos, é uma boa altura para falar num "monstro" de talento musical nascido em Angola, já uma personalidade da música africana, que deveria merecer muito maior atenção em Portugal: Anselmo Ralph..

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Anselmo Ralph nasceu em 1981 na província de Luanda, frequentou o liceu em Angola. Depois imigrou para Nova Iorque para terminar os estudos onde se graduou em contabilidade na faculdade. (...) Após pertencer a uma banda Latino - Rock'n'Roll em Nova Iorque, Anselmo começou a fazer o seu projecto de artista solo em Janeiro 2006 publicou o seu primeiro álbum ’Histórias de Amor' produzido pela gravadora Bom Som, propriedade do próprio artista, o disco é dominado pelo género de música R&B. Em 2006 foi nomeado para a categoria de Melhor Artista Africano, para a gala de consagração do MTV Europe Music Awards 2006, em Copenhaga, Dinamarca.
Em
[http://www.mwangole.net/topmusicas/index.php?Itemid=125&id=310&option=com_content&task=view]
Ainda este ano espera-se um novo disco de Anselmo Ralph.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

As Pupilas do Senhor Reitor III – Júlio Dinis é reconhecido no teatro em Lisboa




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Ilustração de As Pupilas do Senhor Reitor por Roque Gameiro
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Nas “Cartas e esboços literários” da editora Civilização, encontramos esta descrição do que aconteceu a Júlio Dinis, quando foi ver a peça As Pupilas do Senhor Reitor em Lisboa, em Março de 1868, e tentou passar desapercebido do público.

Carta de Joaquim Guilherme Gomes Coelho (Júlio Dinis) para seu pai no Porto:

Papá

Continuo a passar bem e não posso dizer quando partirei.
As “Pupilas” foram bem desempenhadas e prometem dar à empresa bastantes enchentes.
Do que se passou na noite em que eu lá estive dá conta exacta a notícia que envio, a qual foi publicada por um Diário daqui. Ontem esperavam-me à noite em casa do Mendes Leal, mas como às segundas-feiras é lá reunião de etiqueta, a que se vai de casaca e em rigor, fui para o teatro francês e dei por desculpa que não queria deixar a companhia com quem tinha vindo a Lisboa.
No teatro da Trindade, no sábado, pediu-me o Mendes Leal para ir ao camarote dele, visto este não poder deixar só as senhoras com quem estava. No palco fui cumprimentado por diferentes pessoas, e entre elas, o Chamiço. O Castilho já me veio visitar.
As “Pupilas” foram postas em cena com bastante fidelidade de vestuário e de costumes.
O terceiro acto, na esfolhada, agradou muito, e na verdade estava bastante animado. Foi no final desse acto que me principiaram a reconhecer. No 6º quadro, quando o Reitor acompanha a Margarida e lhe beija a mão, não me deixaram ficar na plateia; obrigaram-me a ir ao palco onde fiquei todo o quadro final.
Peço recomendações a toda a família e ao tio Bernardo.
Peço também que mande entregar ao Dr. Reimão os livros que aí deixei para ele e que se alguém aí for procurar os exemplares da Dissertação do Ilídio, lhe entreguem os que estão em um dos armários inferiores da estante.
Que não esqueça também mandar-me esfregar o quarto.

Seu f.º ob.te

Joaquim

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Júlio Dinis

sábado, 6 de setembro de 2008

As Pupilas do Senhor Reitor II - Margarida e Daniel.

É esta talvez a mais conhecida cena de As Pupilas do Senhor Reitor. Pelo menos para mim é a cena que marca o verdadeiro início da história do livro, o da revelação ao leitor do amor de criança entre Margarida e Daniel.
É como hoje se diz, um "teaser". É uma cena que depois nos conduz a querermos ver ao longo do livro, a reunião entre os dois personagens.

— Olá - disse o reitor, parando equilibrado sobre duas alpondras no meio do lamaçal do caminho - Moiro na costa, ou eu me engano muito!
Pôs-se a escutar de novo, e cada vez mais parecia confirmar as suas suspeitas, acabando de se convencer de todo, quando, ao assobiar, sucedeu uma voz infantil, que ele logo reconheceu como a do discípulo, cantando, ainda na mesma toada, que era de uma música popular, as seguintes coplas:

Morena, Morena
De olhos castanhos
Quem te deu, morena,
Encantos tamanhos?

Encantos tamanhos
Não vi nunca assim
Morena, morena,
Tem pena de mim

Morena, morena,
De olhos rasgados
Teus olhos, morena,
São os meus pecados.

São os meus pecados
Uns olhos assim
Morena, morena,
Tem pena de mim.

Morena, morena,
Dos olhos galantes
Teus olhos, morena,
São dois diamantes

São dois diamantes
Olhando-me assim
Morena, morena,
Tem pena de mim.

Morena, morena,
Dos olhos morenos
O olhar desses olhos
Concede-me ao menos

Concede-me ao menos
Não sejas assim
Morena, morena
Tem pena de mim

- Temos o homem - disse o reitor, depois de ouvir a cantiga, e enfiou resoluto pela rua adiante. Mas tendo dado alguns passos mais, parou como se
mudasse de tenção. - Nada, não convém que ele me veja. É preciso espiá-lo sem que ele dê por isso.
Feita esta reflexão, passou um rápido exame ao terreno e retrocedeu. Dobrou novamente a esquina da viela em que se introduzira; costeou o campo do lado direito, até se lhe deparar uma cancela rústica, que não lhe opôs a mínima resistência, e oculto pelo centeio, caminhou, o mais prudentemente que pôde, até o lugar correspondente àquele de onde partia a voz e daí por diante até descobrir a caça que procurava. Não levou muito tempo a realizar o seu intento.
Eis a cena que viu o reitor, acocorado ente o centeio, com a bengala fixa no chão, mãos apoiadas na bengala, o queixo apoiado nas mãos

Defronte do campo, donde, com as melhores intenções deste mundo, o reitor
estava espionando, e separado apenas dele pela estreita e húmida rua, de que já falamos, estendia-se um trato de terreno inculto, muito coberto de tojo e de giestas, e dessa espontânea vegetação alpestre, que, no nosso clima, enflora ainda mais os montes mais áridos e bravios.
Dispersas por toda a extensão deste pasto, erravam as ovelhas e cabras de um numeroso rebanho, de que eram os únicos guardadores, um enorme e respeitável cão pastor e uma rapariguita de, quando muito, doze anos de idade.
Até aqui nada de notável para o reverendo pároco.
Mas o que o maravilhou foi o grupo que formavam, naquele momento, a pequena zagala, o cão e o nosso conhecido Daniel, por via de quem o bom do padre empreendera tão trabalhosa excursão.
A pequena sentada junto de uma pedra informe e musgosa, folheava com atenção um livro, dirigindo, de tempos em tempos, meios sorrisos para Daniel, que, deitado aos pés dela, de bruços, com os cotovelos fincados no chão e o queixo pousado nas mãos, parecia, ao contemplar embevecido os olhos da engraçada criança, estar divisando neles todos os dotes mencionados na canção da Morena, que lhe ouvimos cantar.
Jaziam ao lado dos dois uma roca espiada e os livros de Daniel.
Completava o grupo o cão, enroscado junto do pequeno estudante com desassombrada familiaridade, e denunciando assim que o conhecimento entre eles, e por conseguinte de Daniel com a pastora, não era já de recente data.
Este grupo, apesar de toda a sua beleza artística, realçada pelas meias tintas do crepúsculo e por o fundo alaranjado do céu, sobre que se desenhavam os rendados das árvores ao longe, não agradou de maneira nenhuma ao reitor, que, com um franzir de sobrolho, mostrou claramente a contrariedade que ele lhe fazia experimentar.
Esteve para surgir entre o centeio e mostrar-se aos enlevados personagens deste idílio infantil, severo e terrível, como o velho vulto do gigante Adamastor, nas estâncias do grande épico.
Pôde, porém, conter-se e constrangeu-se a observar a cena, com mal reprimido desagrado.
A pequena, que estivera por muito tempo inclinada sobre o livro, como a lutar com alguma dificuldade de leitura, que procurava vencer por si, acabou por fazer um gesto de impaciência, e, apontando com o dedo a palavra da dúvida, colocou a página diante de dos olhos de Daniel, perguntando-lhe:
— Isto que quer dizer?
Daniel olhou por algum tempo para o livro, e afinal respondeu:
— Cataclismo.
— E o que vem a ser cataclismo?
Daniel ficou embaraçado. A falar a verdade, ele não sabia bem o que era cataclismo. Não teve coragem para o dizer francamente e titubeou:
— Cataclismo... sim... cataclismo é... sim... eu sei o que é... agora para to dizer é que
... Cataclismo...
O reitor apesar da posição crítica em que estava, não deixou de se zangar lá consigo, ao ver um discípulo seu não poder desenredar-se de tais dificuldades filológicas.
Margarida, que era este o nome da pequena, adivinhou a causa da hesitação de Daniel e delicadamente lhe pôs fim, olhando outra vez para o livro e continuando a estudar em silêncio.
Daí a pouco voltou, porém, a consultar o seu pequeno mestre.
— E isto? Como se lê?
— Metempsicose - foi a reposta de Daniel
— E o que vem a ser?
Desta vez ainda o embaraço de Daniel era maior. Nunca ele soubera o que fosse metempsicose, e, como pela segunda vez se via pilhado em falso, perdeu a paciência.
Saiu-se do aperto, como alguns professores em casos análogos.
— Ora! Isso é uma coisa que leva muito tempo a explicar.
Margarida resignou-se a não entender.
Uma terceira interrogação. Desta vez foi a palavra pragmática que a originou.
Daniel estava em maré de infelicidades. Esta acabou de o impacientar. Tirando o livro comprometedor das mãos da discípula, disse com certo despeito mal encoberto:
— Deixa-te de estudar, Margarida; não estou agora para isso.
— Mas depois... amanhã...
— Amanhã! Que tem? Sossega, que não te castigo. E demais ainda tens muito tempo. Não vês que só venho e tarde?
— Mas...
— Mas... agora não quero que estudes, quero que cantes.
— Ora cantar! Que hei eu de cantar?
— A cantiga da Morena.
— Eu não gosto dela.
— Não?
— Eu, não.
— Então de qual gosta mais, Guida? - perguntou Daniel, dando à pergunta, e sobretudo àquela familiar alteração do nome de Margarida, uma música de afectuoso galanteio, que não deixaria ficar mal ninguém.
— A da Cabreira, é muito mais bonita.
— Já não me lembra bem. Pois então canta a da Cabreira.
— Agora não.
— Agora sim; e por que a não hás de cantar agora?
— A minha irmã Clara é que a sabe cantar bem, eu não.
— Ora adeus, ela é ainda uma criança - disse Daniel com um soberbo gesto de homem - Eu quero-a ouvir de ti.
— Eu julgo que nem a sei.
— Sabes, sabes, ora vamos a ver.
— Olhe... eu canto, mas...
E Margarida pôs-se a cantar e com a voz tão sonora e agradavelmente infantil, que, se o reitor estivesse despreocupado, em uma posição mais cómoda e disposto a julgar com imparcialidade, confessaria que era excelente. Mas na ausência destas condições de juízo desapaixonado, foi um crítico como quase todos.
Ai vai o que ela cantava. em uma dessas singelas e monótonas melopeias de quase todas as xácaras populares:

Andava a pobre cabreira
O seu rebanho a guardar,
Desde que rompia o dia
Ate a noite fechar.

De pequenina nos montes
Não tivera outro brincar,
Nas canseiras do trabalho
Seus dias vira passar

— Assim como tu - disse Daniel.
Margarida sorriu, fazendo com a cabeça um movimento afirmativo, e continuou:

Sentada no alto da serra
Pôs-se a cabreira a chorar,
Por que chorava a cabreira,
Ides agora escutar

"Aí! que triste a sina minha,
Aí que triste o meu penar
Que não sei de pai nem mãe,
Nem de irmãos a quem amar

De pequenina nos montes
Nunca tive outro brincar
Nas canseiras do trabalho
Meus dias vejo passar".

Mas, ao desviar os olhos
Uma coisa que a fez pasmar.
Uma cabra toda branca
Se lhe fora aos pés deitar.

— Assim, pouco mais ou menos - disse Daniel, pousando a cabeça nos braços encruzados sobre as urzes do chão.
Margarida prosseguiu:

Branca toda, como a neve,
Que nem se deixa fitar,
Coberta de finas sedas,
Que era coisa singular!

E, maliciosamente, com um sorriso de travessura infantil, passou os dedos por entre os cabelos de Daniel.

Nunca a tinha visto antes
No seu rebanho a pastar,
E foi a fazer-lhe festa...
E foi para a afagar...

E continuava a correr as mãos pela cabeça de seu jovem companheiro, que sorria

Eis vai a cabra fugindo
Pelos vales sem parar;
Ia a cabreira atrás dela
Mas não a pôde alcançar.

E andaram assim três dias.
E três noites sempre a andar!
Até que a porta de uns paços
Afinal foram parar.

Chorava o rei e a rainha
Há dez anos sem cessar,
Que lhe roubaram a filha
Numa noite de luar

E dez anos são passados
Sem mais dela ouvir falar,
Eis chega a cabreira à porta
À porta foi se sentar

"Ai que bonita cabreira...

E Margarida, ao cantar este verso, não pôde conservar-se séria, vendo Daniel
levantar os olhos para ela.

Que lá embaixo vejo estar!
E uma cabra toda branca
Que nem se deixa fitar

Meus criados e escudeiros
Ide a cabreira buscar".
Isto dizia a rainha,
Este foi seu mandar.

Foram buscar a cabreira
E a cabra de a acompanhar
Até a sala dos paços
Onde o rei a viu chegar.

"Pela minha c'roa de ouro
Eu quero agora apostar,
Que esta é a filha roubada
Numa noite de luar".

Milagre! Quem tal diria!
Quem tal pudera contar!
A cabrinha toda branca
Ali se pôs a falar.

A seguinte quadra foi cantada também por Daniel e sem ofensa da harmonia:

"Esta é a filha roubada
Numa noite de luar,
Andou sete anos no monte
Quem nasceu para reinar!"

O resultado da intervenção de Daniel foi acabarem os dois a rir, com grande risco de deixarem incompleta a cantiga.
A rogos do seu companheiro, Margarida, passados alguns momentos, concluiu:

Que alegrias vão nos paços,
E que festas sem cessar!
A filha há tanto perdida,
No trono os pais vão sentar

E vêm damas p'ra vesti-la
E vêm damas p'ra calçar,
E as mais prendadas de todas
Para as tranças lhe enfeitar

Vão procurar a cabrinha...
Ninguém a pôde encontrar;
Mas...

Foi olhando Daniel que a pequena Guida terminou:

Mas um anjo de asas brancas
Viram as céus a voar

E assim acabou a última quadra da xácara, e por algum tempo, as duas crianças se conservaram caladas, como se quisessem seguir ainda, até as derradeiras vibrações, as notas melodiosas daquela voz, ao desvanecerem-se no espaço.
Daniel foi o primeiro a romper o silêncio,
— Então, vês como a soubeste até o fim? E cantaste-a tão bem!
— Ora!
— Mas é noite, Guida, Repara. Olha que são horas de tu ires juntar o gado.
E acrescentou, suspirando melancolicamente:
— Daqui a pouco estou eu de volta com o meu latim! E que lição tamanha me marcou o padre esta manhã!
— Então de que tamanho é?
— Olha; vai vendo - disse Daniel, abrindo a Seleta e mostrando a Margarida as
folhas que o reitor lhe marcara para estudar. - É esta lauda... e esta... e esta, até aqui.
— E então isso diz o que diz?
— Conta a vida lá de uns generais antigos que fizeram guerras mortes e que quase sempre se matavam a si, quando não os matavam a eles.
— E para que é preciso que saiba estas histórias quem quer ser padre?
— Eu sei lá! Mas que estás tu a dizer? Padre! padre! Não me fales em ser padre, Guida. Eles cuidam que eu quero mesmo ser padre, estou querendo.
— Então?
— Ora quando chegar a hora eu lhas cantarei. Ainda está por nascer o barbeiro que me há de abrir a coroa. O tio João das Bichas disse-me noutro dia - a rir, já se sabe - que já tinha em casa uma navalha afiada para isso; eu fui-lhe dizendo que bem deixava então a navalha para o barbearem em morto.
— Mas o seu pai mata-o!
— Meu pai? Deixa-te disso. Meu pai não há de querer fazer-me padre a força.
— Mas o Sr. Reitor?
— O Sr. Reitor não é cá chamado. Que se meta com a sua vida. Ora é muito boa!
— E por que não quer ser padre, Danielzinho?
— Olhem que pergunta! Não quero ser padre, porque não quero, porque gosto de ti, e, porque, afinal de contas, hei de vir a casar contigo.
— Ora!
— Hei de, sim. Verás.
E dizendo isso, passou facilmente o braço pelo pescoço da pequena Guida, e pousou-lhe na fronte um beijo que ainda nem sequer a fazia corar.
O reitor estava escandalizado e estupefacto por quanto vira e ouvira.
Tivesse assistido em pessoa ao aparecimento do anticristo, que não se maravilhara tanto.
Esta cena inofensiva, esta écloga entre duas crianças, parecia-lhe mais abominável do que a outro qualquer as mais impudicas aventuras daquele herói, que Byron imortalizou com o nome de D.Juan, nome, já antes dele, de pouco austera memória.
Ao chegar a seus atónitos ouvidos, a vibração sonora do beijo, que terminou o diálogo, o padre estremeceu como se acabasse de escutar um silvo de serpente cascavel, e não pôde reprimir uma interjeição desaprovadora, bastante audível, para ser percebida por todas as personagens da cena que descrevemos.
— Não ouviste, Guida? Que foi aquilo? - disse Daniel, já meio erguido e olhando com inquietação ao redor de si.
— Não é nada - respondeu esta, com pouco mais de frieza de ânimo.
Mas, neste tempo, já o cão se havia levantado e ladrava furiosamente na direcção do lugar onde o reitor estava escondido.
— Aqui, Gigante, aqui! - bradava-lhe, em vão, Margarida.
— O que estará acolá no centeio para o cão ladrar assim? - perguntou Daniel, já sem pinta de sangue.
E o cão ladrava cada vez mais, e parecia pronto para arremeter contra um inimigo oculto.
O reitor, como é de prever, começava a achar-se muito pouco à vontade.
— Aqui, Gigante - continuava a pequena, já cansada de bradar.
Mas Daniel, assustado, valeu-se do cão, como instrumento de exploração e defesa, e soltou uma palavra imprudente:
— Busca, Gigante, pega!
Não foi preciso mais nada.
O Gigante galgou de um salto o estreito caminho que o separava do campo onde o reitor cada vez suava mais com a iminência do perigo, e rompendo por entre o centeio, veio pousar triunfantemente as patas dianteiras sobre os ombros do pobre velho, que julgou ver a morte na figura deste monstruoso cão.
Como esses bonecos que fazem as delícias dos pequenos feirantes de S. Miguel e do S. Lázaro, no Porto, e que ao abrir-se a caixa que os contém, são repentinamente expelidos por uma mola interior, o pároco, ao toque mágico do agigantado quadrúpede, ergueu-se, de súbito, sobre os calcanhares, e, meio sufocado pelo susto e com as faces enfiadas, bradou para Daniel:
— Chama este cão rapaz endemoniado! Ele mata-me!
Daniel é que não podia lhe valer, tão embasbacado ficou com a inesperada aparição do mestre. A mulher de Ló por certo não se conservou tão imóvel, depois do fatal momento em que cedeu à sua irresistível curiosidade.
A pequena Margarida é que salvou a situação - como me parece que se costuma dizer em política. Armou-se da maior severidade que lhe era possível, e com a inflexão de voz imperiosa, pronunciou um -"aqui Gigante!" - que foi prontamente obedecido.
O reitor estava salvo, mas ainda não senhor seu, e deveras chufado com as circunstâncias ridículas que acompanharam a sua descoberta. Ora, como sempre acontece , estas circunstâncias inabilitavam-no para assumir o carácter severo, grave e pedagógico, necessário a quem se propõe a dar uma repreensão ou a fazer uma prática de moral.
Com muito bom senso renunciou, pois, o reitor a este projecto, e sem dar palavras, virou costas e abandonou o lugar dessa aventura, interiormente quase tão pouco satisfeito consigo como com o seu discípulo.
Daniel, passados alguns momentos mais de silencioso pasmo, desatou a rir, a rir, a rir, desse expansivo e contagioso rir de criança, que não tem outro igual. Esqueceu o que para ele havia de estranho e sério em tudo aquilo, e as consequências que poderia ter, para só se lembrar da carantonha que fazia o reitor a gritar que lhe acudissem, do susto que apanhara, do aspecto sorumbático que levava ao partir, e por isso tudo ria às bandeiras despregadas.
Vejam lá se o padre não fez bem em adiar o sermão para ocasião mais oportuna?
Porém. Margarida? Essa é que não ria. Certo instinto de delicadeza inato em quase todas as mulheres, não sei que vaga presciência de infortúnio, que algumas, de criança possuem, parecia-lhe estar dizendo que tudo aquilo, sem saber por quê, lhe poderia vir a ser funesto.
E enquanto Daniel ria, ela, coitada, não se pôde conter, e começou a chorar.
— Que tens tu, Guida? Isso que é? - perguntou-lhe Daniel, já sério e meio sensibilizado - Por que choras assim?
— Deixe-me. Não sei bem... mas sinto uma tristeza... e tamanha... tamanha! Vamos.
É tarde, vou juntar o gado.
— E eu ajudo-te.
— Não. Vá para casa e corra bem, antes que o Sr. Reitor chegue lá primeiro.
— Pois ele irá?
— Ande... corra.Foi então que Daniel reconheceu que Margarida podia ter alguma razão em não levar o caso a rir, e que não devia ser para ele uma coisa de todo insignificante a aparição do padre ali. Por isso disse adeus à sua companheira, e deitou a correr para casa.
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A primeira ilustração é de Roque Gameiro. Desconheço o autor da segunda ilustração, capa do livro da editora Civilização.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

As Pupilas do Senhor Reitor I – A esfolhada

Em finais de Setembro, princípios de Outubro realizam-se as esfolhadas (desfolhadas ou descamisadas), que são o trabalho de retirar a folha do milho: depois de cortado, o milho é transportado para a eira, onde se aproveita o ensejo de juntar as pessoas, para fazer daquela tarefa do campo, uma festa; quem tiver a sorte de encontrar uma espiga vermelha, grita “milho-rei!” (ou rainha) e tem de abraçar todos os presentes.
Antigamente, no meio rural, muito conservador dos costumes, era uma das poucas alturas em que aos rapazes namoradeiros era permitido abraçar as raparigas. A espiga do milho é depois guardada nos espigueiros. Nas Pupilas do Senhor Reitor de Júlio Dinis encontramos uma esfolhada:

A esfolhada fez-se na eira espaçosa e desafogada de José das Dornas, e por formosíssima noite de luar claro como o dia.
(…) O velho lavrador tinha dedo para dispor as coisas convenientemente.
Um monte enorme de espigas ocupava o meio da eira. Abertas de par em par as portas do cabanal aguardavam as amplas canastras para onde se iam lançando as espigas esfolhadas.
Sentados em círculo, à volta daquela alta pirâmide, trabalhavam azafamados, parentes, criados, vizinhos, amigos e conhecidos, que sempre afluem aos serões desta natureza, ainda que não convidados.
Não havia lugares de distinção aí. Cada qual se sentava ao acaso, ou, quando muito, conforme as suas secretas preferências.
A mais completa igualdade se estabelecera na companhia, desde o princípio dos trabalhos.
José das Dornas, que sabia, como ninguém, manter, nas ocasiões devidas, a sua dignidade de chefe de família, dava, desta vez o exemplo a sem-cerimónia, praticando jovialmente, até com o mais novo dos seus criados; e estes usavam para ele de liberdades que, fora do tempo, lhes sairiam caras. Pedro, rapaz sempre atencioso e grave no seu trato para com os velhos, naquela noite, tendo por vizinha uma séria e madura matrona da aldeia, requebrava-se em galanteios para com ela, e afectava rendidos extremos, com grande riso dos circunstantes e de Clara, a qual, pela sua parte, fingia uns
ciúmes igualmente aplaudidos da assembleia.
Uma velha, querendo aproveitar o seu tempo, tentou regular ali as suas contas com Nossa Senhora rezando uma das muitas coroas, de que lhe estava em dívida; e, a cada passo, rompia em vociferações contra duas raparigas entre as quais ficara e cuja palestra a fazia perder na fieira de padre-nossos e ave-marias da sua interminável reza.
Os arrufos da velha eram estímulo para risadas.
As vezes saltava ao meio do círculo uma criança com grandes bigodes, feitos de barba de milho, e a ideia era logo apoiada e imitada por todas as outras, com grande embaraço ao bom e pronto andamento da tarefa do serão. As mães ralhavam, rindo; os pais
faziam os mesmo; e disfarçadamente punham, ao alcance dos pequenos, novos instrumentos para idênticos delitos.
As raparigas e rapazes tiravam uns aos outros o gorgulho, que por acaso encontravam nas espigas, o que introduzia grande alvoroço na assembleia, e enchia os ares de gritos e de vozerias atordoadoras.
(…) - Milho rei! milho rei! milho rei! - rompeu uma voz, e esta tríplice exclamação tudo pôs em desordem; interrompeu o canto, e arrebatou Daniel à doce contemplação em que se deixara cair.
Aquele grito partira de José das Dornas, que fora o primeiro a cujas mãos concedera a sorte, enfim, uma espiga vermelha.
A festa mudou súbita e completamente de caracter.
À exclamação do lavrador respondeu grande alarido na assembleia. De todos os lados se pedia o cumprimento da lei da esfolhadas. Cabia pois a José das Dornas fazer a primeira distribuição de abraços.
O alegre lavrador não se fez rogar.
Seguiu-se então um espectáculo iminentemente cómico. José das Dornas ergueu-se do lugar onde estava para correr um por um, todos os outros, e, com profusão de abraços, dar o exemplo de observância à lei reguladora da festa.
Todo este cerimonial foi acompanhado das gargalhadas dos espectadores, e entremeado de observações jocosas do oficiante, o qual fazia valer sobremaneira o ato, graças ao génio folgazão que Deus lhe dera.
A cada rapariga que abraçava, José das Dornas, prolongando mais o abraço, dizia com visagens e gestos, que faziam estalar de riso os circunstantes.
— Na minha idade, aos sessenta anos, só o milho rei me podia dar destas fortunas! Ainda bem que a sorte mo trouxe às mãos.
Ao abraçar os homens, exclamava ele, com certo ar de desconsolação, comicamente expressivo.
— Que belo abraço desperdicei agora!
Passando pelos filhos, abraçou-os também, dizendo-lhes:
— Rapazes, tenham paciência. Eu sei que são destes abraços que vós quereis. Mas é lei, é lei. Os outros virão a seu tempo.
A um criado disse, meneando a cabeça:
— Ah! maroto! Ser obrigado a abraçar-te, quando tanta vontade tinha de te apalpar de outra maneira as costas! Ora vá, que talvez te não gabes de outra.
O certo é que, depois disso, começou a animar-se a esfolhada. As espigas vermelhas como se atraídas pelo bom colhimento feito à primeira, apareceram sucessivamente a diferentes mãos, e cada uma que aparecia dava lugar a episódios graciosos e a prolongada hilaridade.
Às vezes era uma rapariga tímida e acanhada, que não queria cumprir a sentença; e então todas as vozes se reuniam a exigi-la; e ela a recusar-se, e os vizinhos a empurrá-la, e todos a aplaudirem a rapariga, sorrindo e enleada de confusão, a correr a roda, e alta vozeria a celebrar com ovações a vitória sobre a rebelde; outras, era um velho ou velha, a que faziam tropeçar, ou abaixar-se para dar o abraço, e que depois cobriam desapiedadamente de montes e folhelho com aprovação e coadjuvação geral da parte jovem dos serandeiros; outras, um rapaz destemido, que, pela terceira vez, reclamava abraços, e contra o qual se tramava uma conspiração mulheril, a contestar-lhe a legalidade das pretensões, acusando-o de fraude e de trazer de casa as espigas vermelhas, de que se valia; animava-se então a discussão, mas afinal sempre se davam os abraços.
Todos porém, aceitavam as excepcionais liberdades desta noite de tradicional folgança, com a consciência de que não poderiam nunca fazê-las valer a justificar ulteriores e mais arrojadas aspirações.

Nota curiosa nesta cena do romance de Júlio Dinis é a importância que atribui aos astros. Diz ele a determinada altura como que a falar com os leitores:
O ser alumiado pelo luar é uma circunstância que redobra o valor da festa.
Eu creio nas influências planetárias - perdoem-me a fragilidade astrológica os homens da ciência positiva. Bem sei que passou já de moda esta crença tão arraigada nos mais severos espíritos de outros tempos; mas por mim, ainda não pude resolver a romper com ela de todo.
Penso em que o moral e o físico da humanidade andam sob o império de forças multiplicadíssimas, muitas das quais ainda estão por descobrir ou estudar, e não vejo que se possa desde já excluir do rol delas a luz desse planeta pálido, tão querido aos amantes e poetas.
Digam-me por exemplo, se uma esfolhada ao meio dia pode ter nunca a índole jovial das que se fazem à claridade da Lua? - se nela se concedem beijos e abraços com tão poucos escrúpulos? - se a gente se ri com igual vontade e franqueza? E não me venham
explicar isto só pelo efeito da meia obscuridade, que serena as repugnâncias dos tímidos, e excita a audácia dos arrojados; porque nunca vi elevaram-se ao mesmo grau de intensidade essas ruidosas alegrias e folguedos, quando a luz, ainda menos limpa de sombras, de uma só lâmpada ilumina o lugar do serão.
Forçosamente tem a Lua parte nisso. Não sei o que há na atmosfera em uma noite assim!
O espírito mais embotado para as suaves comoções da poesia, parece receber então um raio de lucidez e acreditar vagamente na existência de alguma coisa, acima dos prosaicos interesses da vida positiva; os corações mais fechados a arroubamentos de amor, sentem-se embrandecer, e de mais de um consta haver infringido, em noites dessas, velhos e porfiados protestos de isenção.
E negam a influência da Lua?! No coração dão-se fluxos e refluxos de sentimento, cuja teoria pode ter alguma coisa de comum com a do fluxo e refluxo dos mares. É uma velha crença esta, que me leva a supor a Lua favorável ao amor e indispensável à alegria das esfolhadas.
Júlio Dinis era um homem do seu tempo e um homem de ciência, pseudónimo do médico Joaquim Guilherme Gomes Coelho, que se licencia na Escola Médico-Cirúrgica do Porto com notas elevadas. Mas, pelos vistos, a sua formação científica tinha este pequeno pecado de crendice, aqui confessado com muito espírito.
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A ilustração da esfolhada aqui apresentada foi desenhada para as Pupilas do Senhor Reitor por Roque Gameiro

domingo, 24 de agosto de 2008

Michael Phelps ontem em Portugal, no Algarve.

Interrompo as férias do blogue, por causa desta extraordinária foto da primeira página do DN: Michael Phelps, o campeoníssimo nadador americano dos jogos olímpicos de Pequim, numa piscina algarvia, ontem, após algum tempo de estadia no nosso país para descansar, com Manuel Pinho, Ministro da Economia do governo português. É a foto deste Verão.
Com muita piada o Diário de Notícias colocou a legenda ”Phelps explicou a Pinho como se tornou campeão”. Ver http://dn.sapo.pt/2008/08/24/desporto/phelps_gastou_5_euros_noite.html

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Depois de nadar com fatos de competição feitos em Portugal [ver vídeo abaixo], parece que Phelps quis passar por cá, e assim faltar à cerimónia de encerramento dos jogos em Pequim. Será que alguém lhe deu a provar um bacalhau com uma boa pinga, a ele que dizem que é tão comilão?

Nota: ver este vídeo e comentários também em http://videos.sapo.pt/0T65CKmzBujBv0EJPYjr

sábado, 2 de agosto de 2008

Boas férias e boas leituras

Até ao meu regresso em Setembro.


"Ti Manel" - Vinhos do Alentejo


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Também em Lusofolia-Lusofilia-Lusomania, http://appex.blogspot.com , um blogue
excelente, da Associação de Professores de Português na Estremadura Espanhola (APPEX).

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

ABAIXO O MISTÉRIO DA POESIA

A propósito da prisão de Karadzic
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É possível pensar que virá o dia em que a humanidade não tolerará ditaduras, nem miséria, nem guerra. Temos ainda um caminho a percorrer, é verdade, mas com a nossa crescente indignação, firmeza, pragmatismo e bom senso, lá chegaremos. Nessa altura, os direitos humanos deixarão de ser uma declaração de boas intenções, passando a ter força de lei, capaz de punir os infractores, que não terão mais onde se esconder. Talvez sejam necessários mais 50 ou 100 anos, mas creio que já estivemos mais longe. A prisão de Karadzic* foi mais uma etapa nessa direcção**. Entretanto, continuará actual este poema de António Gedeão:

ENQUANTO

Enquanto houver um homem caído de bruços no passeio
e um sargento que lhe volta o corpo com a ponta do pé
para ver como é;
enquanto o sangue gorgolejar das artérias abertas
e correr pelos interstícios das pedras,
pressuroso e vivo como vermelhas minhocas despertas;
enquanto as crianças de olhos lívidos e redondos como luas,
órfãs de pais e de mães,
andarem acossadas pelas ruas
como matilhas de cães;
enquanto as aves tiverem de interromper o seu canto
com o coraçãozinho débil a saltar-lhes do peito fremente,
num silêncio de espanto
rasgado pelo grito da sereia estridente;
enquanto o grande pássaro de fogo e alumínio
cobrir o mundo com a sombra escaldante das suas asas
amassando na mesma lama de extermínio
os ossos dos homens e as traves das suas casas;
enquanto tudo isto acontecer,
e o mais que se não diz por ser verdade,
enquanto for preciso lutar até ao desespero da agonia,
o poeta escreverá com alcatrão nos muros da cidade:

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*Radovan Karadzic: político sérvio, alegado responsável por actos de genocídio, entre 1992 e 1995, envolvendo a morte organizada e sistemática de milhares de pessoas.
**O secretário geral das Nações Unidas (o sul coreano Ban Ki-Moon), através do seu porta-voz, veio declarar ser este “um passo para que se acabe com a impunidade”.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

A história do macaco do rabo cortado

História infantil tradicional
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Era uma vez um macaco que queria ir para a escola, mas muitos meninos faziam troça dele porque tinha um rabo comprido. Então ele resolveu ir ao barbeiro e pedir para lhe cortarem o rabo. O barbeiro perguntou se tinha a certeza, e como o macaco respondeu que sim, o barbeiro, trás! Cortou-lhe o rabo com uma navalha.

No outro dia, quando o macaco chegou à escola, os meninos riram-se por ele ter o rabo cortado, e chamaram-lhe “o macaco do rabo cortado”. Então, resolveu ir ao barbeiro buscar o seu rabo, mas o barbeiro disse-lhe que já não tinha o rabo, que tinha ido para o lixo. Então o macaco ficou furioso, pegou na navalha do barbeiro e fugiu com ela.

Na rua encontrou uma varina que o viu com a navalha na mão e lhe disse: “ó macaquinho, para que queres tu essa navalha? Não te serve para nada! A mim é que fazia falta para eu amanhar o meu peixe”. O macaco deu-lhe razão e entregou-lhe a navalha. Mas mais tarde, começou a sentir fome e para descascar uma maçã, precisou da navalha. Foi ter com a varina e pediu a navalha, mas a navalha estava partida. Então ficou furioso e levou a canastra das sardinhas da varina.

Quando ia na rua com a canastra de sardinhas, encontrou o padeiro, que lhe disse: “olha coitado, vais tão carregado com as sardinhas, se quiseres eu guardo essa canastra na minha casa.” E assim foi. Agora o macaco sentia-se mais à vontade e podia ir de um lado para o outro, sem ter de transportar as sardinhas. Mas um tempo depois, começou a ter fome. O peixe dava-lhe jeito para comer e por isso resolveu ir buscá-lo a casa do padeiro. Mas o padeiro, com a família, tinha comido as sardinhas. Então furioso, tirou um saco de farinha ao padeiro.

Quando ia pelo caminho com o saco de farinha, encontrou a senhora professora que lhe pediu a farinha para fazer uns bolinhos. Como o macaco não sabia fazer bolinhos com a farinha, deu a farinha à senhora professora. Mais tarde, quando voltou a ter fome, resolveu ir ter com a senhora professora e pedir-lhe alguns bolinhos. Mas os bolinhos já tinham sido todos comidos. Ninguém tinha guardado uns bolinhos para oferecer ao macaco. Então ficou furioso e roubou uma menina da senhora professora.

Só que, para espanto do macaco, a menina começou a chorar. Teve pena da menina e foi levá-la à mãe. Para que é que quereria uma menina? Mas mais tarde, quando chegou a casa e viu tudo desarrumado, pensou que a menina poderia trabalhar para ele e ajudá-lo a limpar e a arrumar a casa e por isso resolveu ir buscá-la. Quando foi buscar a menina, a mãe não lha deu, claro, e então, furioso, levou–lhe a camisa do marido que estava pendurada na corda da roupa.

No caminho, encontrou o músico com uma viola que lhe pediu a camisa. Como a camisa do músico já estava muito velhinha o macaco deu-lhe a camisa. Mas o músico quando foi para casa vestir a camisa, ela rompeu-se, e teve de a deitar fora. Quando chegou a noite e o macaco sentiu frio, quis a camisa de volta, mas o músico já não a tinha porque a camisa tinha–se rompido. Por isso, resolveu tirar a viola ao músico e fugir.

O macaco subiu então para cima do telhado e cantou:

"Do rabo fiz navalha,
da navalha fiz sardinha,
da sardinha fiz farinha,
da farinha fiz menina,
da menina fiz camisa,
da camisa fiz viola,
e eu vou para Angola".

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FIM
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[Presumo que o macaco fosse angolano e quisesse voltar à sua terra natal. Só assim faz sentido o fim da história. Mas contaram-me outra versão, em que o músico volta para reaver a sua viola, conseguindo apanhar o macaco traquinas. Nesta versão a última frase da cantilena passaria a ser "Vai para o saco, meu grande mariola!", que seria dita pelo músico.]
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Nota: as figuras aqui incluídas encontram-se na estação de Alvalade do Metro de Lisboa e são da artista plástica Bela Silva. Ver http://www.belasilva.com/
Na maioria das estações do Metro de Lisboa podemos encontrar e disfrutar de obras de outros grandes artistas portugueses. Ver http://www.metrolisboa.pt/Default.aspx?tabid=72

domingo, 27 de julho de 2008

A Casa da Celestina de Paula Rego

Não é a fealdade das figuras, que nem sequer é forçada. Se calhar é assim mesmo que devem ser vistas. Não é também a falta de maneiras. Se calhar aquelas, são as situações reais. Mas o conjunto é como um espelho em que podemos ver reflectido muito daquilo que temos sido e que ainda somos em Portugal. Para o bom e para o mau. Muitas vezes ainda, os quadros transportam motivos sexuais que os tornam ainda mais provocantes. Por isso, cada trabalho de Paula Rego merece um olhar crítico e demorado. Um dos meus preferidos, é A Casa da Celestina: um retrato terrível, mas notável.

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Na internet estão disponíveis muitos dos quadros da pintora. Ver por exemplo em http://www.artnet.com/artist/636556/paula-rego.html

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Com Obama há coisas que vão mudar, também na Europa.

Desde há alguns meses que me persegue a sensação pouco confortável, que várias situações que até aqui dávamos por adquirido estarão prestes a mudar. A principal causa reside na economia e no brutal desvio de valor que o “Ocidente” e de forma mais dramática os Estados Unidos, têm vindo a realizar, para os países produtores de petróleo e para as economias emergentes, como a China e a Índia. Resultado: o complexo militar americano, tal como está, parece ser cada vez mais insustentável para o orçamento do governo dos Estados Unidos.
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Acresce, que os candidatos democratas, em particular o provável vencedor das eleições americanas, Barack Obama, tem vindo a apoiar a criação de um Serviço Público de Saúde nos Estados Unidos, à europeia, o que acarretará ainda mais pressão sobre as despesas orçamentais.
Por isso tenho estado muito atento para saber o que vai dizendo por aqui e por ali o provável novo presidente americano. Inicialmente, pensava que uma das vias poderia ser a de um certo isolacionismo, até pela atitude face ao Iraque, mas nestes últimos dias de périplo por países como Israel e o Afeganistão, percebi que afinal não era essa a ideia. Mas qual seria? Como se poderia compatibilizar a manutenção de uma máquina militar que vale metade do orçamento americano, com o aumento dos combustíveis, a perda de valor do dólar, o défice e a dívida externa estrutural e as propostas de criação de um verdadeiro serviço público de saúde?
Ontem comecei a perceber. Em Berlim, num comício espectacular perante duzentas mil pessoas, Obama declarou:
“Se nós queremos ser honestos uns com os outros, sabemos que às vezes, dos dois lados do Atlântico, seguimos caminhos diferentes e esquecemos o nosso destino conjunto (…). Na Europa, pensar que a América está incluída naquilo que está mal no mundo, mais do que uma força que procura corrigi-lo, tornou-se comum. Na América, há vozes que negam a importância do papel da Europa na nossa segurança e no nosso futuro. Ambas as opiniões carecem de acerto (…) Neste novo século, americanos e europeus têm de fazer mais – e não menos. Parceria e cooperação entre nações não é uma escolha; é a única forma de proteger a nossa segurança e avançar no nosso humanismo comum.”
A mensagem geral de Obama é a de um apelo à união entre americanos e europeus e há uma frase que não esqueci: “we cannot afford to be divided”. E é quanto a divisões, que me quer parecer que a factura da defesa vai ter de ser “dividida” de outra forma. Isto também tem que ver com Portugal, que além de membro da União Europeia, é membro da NATO. Talvez me engane, mas quais são as alternativas? Vamos ver a continuação do folhetim.
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Nota:
Não resisti a incluir esta extraordinária foto da Associated Press do sítio do New York Times e que faz também a primeira página do International Herald Tribune. Curioso, que numa das primeiras filas do comício de Berlim, uma faixa que parece ter as cores alemãs, com o amarelo e com o preto, tem na realidade escrito a vermelho, "ANGOLA".